Mês: Outubro 2010

Livraria

Truth is meaningless without context, without an environment.
– André Alexis

Entro na livraria pelo meio-dia. Procuro Light Lifting, contos do escritor canadiano Alexander MacLeod. Este seu primeiro livro, além de ter sido bem recebido pela crítica foi nomeado para o prestigioso Scotiabank Giller Prize.

Vem-lhe no sangue, ou nos genes, a arte de escrever. Filho do famoso escritor Alistair MacLeod,  autor de, por exemplo, No Great Mischief, Alexander apareceu no mundo literário com a segurança e a determinação de quem estava consciente do seu talento. Este título demonstra-o de modo inequívoco.

Corro, pois, a livraria. Dirijo-me às estantes, organizadas por ordem alfabética. Nada. No momento em que me volto, passa uma empregada. Peço-lhe ajuda.

É uma mulher ligeira, de meia-idade, cuja leveza lhe parece dar asas. Não anda, voa. Corro atrás dela até ao computador como um maratonista inexperiente a navegar na sua própria sombra.

Deita o meu papel ao lado do teclado e põe-se a escrever muito depressa. Baixa os olhos duas vezes a certificar-se.

– Desculpe, não temos.

Agradeço e vou meter-me no café, um lugar aprazível no fundo da livraria.

Constato, aliviado, que ainda há uma mesa disponível. Cinco tipos, estáticos como corvos num fio eléctrico, movimentam os dedos nos teclados dos computadores portáteis. Estão sentados para estar. Não mexem a cabeça, não respiram. Vivem suspensos de um mundo ulterior.

Apetece-me chegar ao pé deles e, na brincadeira, dizer-lhes:

– Os senhores desculpem mas vão ter que tomar um café cada quinze minutos. Temos poucas mesas e os clientes são muitos. Compreendem, não é verdade? Estamos aqui para fazer negócio e não para abrigar intelectuais. Para isso existem as bibliotecas.

Sorrio ao pensar nisto enquanto mexo o meu café com mel e canela. Eles, impassíveis, continuam na sua indiferença opressiva, alheios e compenetrados.

Penso como terei de reinventar o serão. Imaginava poder levar comigo os contos de Alexander McLeod e lê-los pela noite fora.

À saída paro junto a uma mesa, no corredor de entrada, onde estão vários livros expostos. Um prende-me a atenção, Asylum, de André Alexis.

Nascido na Trinidade, veio para o Canadá ainda criança. O seu livro Childwood (1998),  reflecte a simbiose entre dois mundos literalmente opostos. A escrita é elegante, viva, e leva-nos de arrastão pelas suas águas.

Assim chegou a noite. A luz do candeeiro descansa suavemente sobre as magníficas páginas de Asylum.

Entrei na livraria à procura de um estranho e acabei por encontrar um conhecido.

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Onde está a Guilhermina?

Acordo cedo, antes do mundo. Tenho por companhia uma chávena de café e livros, muitos livros. Estão disseminados por estantes, na mesa de trabalho, alinhados no parapeito da janela e contra os vidros. Qualquer dia revoltam-se: exigem um lugar mais condigno, o espaço branco e alto de uma biblioteca pública. Imagino uma guerra de palavras contra mim, um exército de impiedosos adjectivos.

Vivo numa ilha simbólica. Não avisto o mar ao abrir a porta de casa: deparo, sim, com uma madrugada húmida, soturna, a rua deserta e escura.

Uma corrente de água, diluvial, trava-me as intenções de sair. Algo de poético e misterioso corre pela rua escura e abandonada.

Observo, transido de frustração, como as folhas caídas na relva se perdem entre as árvores. Dançam, vulneráveis, sob as chibatadas frias e violentas dos ventos.

Chove com vingança e terror. Eternamente. Sinto no espírito impiedosos golpes de espada.

O Outono funesto força-me a regressar ao escritório. Descalço-me e ponho-me a ouvir Mozart.

Fecho os olhos. A música leva-me de mão dada pela memória. Fico imóvel, escondido na minha própria circunstância. Os minutos correm, lentos, profundos. Sinto-me a resvalar por um declive, como se uma névoa crescesse, lenta e incontornável sobre os olhos. Cruzo os braços no teclado do computador, ainda desligado. Descanso a cabeça, os pensamentos.

Acordo com uma dor no pescoço. Levanto-me e aninho-me na cadeira de espaldar. Estico as pernas. Reparo no jardim através da janela. Começa a clarear. Noto que a chuva abrandou. O CD de Mozart entretanto no fim. Levanto-me, tiro os auscultadores. Logo a seguir desligo o carregador de baterias da minha máquina fotográfica: a luz verde cintila na penumbra.

***

No Outono, quando as árvores se tornam num doirado flamejante, as manhãs e as tardes iluminam-se. A luz chama por nós devagar, como alguém que nos entrega as mãos e, nelas, todo o calor do coração. Esperava que hoje fosse um dia assim, de uma beleza estonteante. Não é.

Volto-me e reparo na estante. Corro as lombadas como quem vê a paisagem numa viagem de comboio. O abraço avança e a mão, cega, agarra um livro. É a Antologia Breve de Pablo Neruda, organizada e traduzida por Fernando Assis Pacheco.

Corro o índice com o dedo. Chama-me a atenção o poema Onde está a Guilhermina.

Comprei este livro em 12 de Janeiro de 1978, em Ponta Delgada, por 75 escudos, meses após a sua publicação. Deve ter sido na Livraria Gil, onde me abastecia com frequência.

Lembro-me de quanto esse poema me tinha arrasado. Li-o e reli-o até às lágrimas. Por estranha coincidência, chovia no meu quarto açoriano. Com o livro aberto na pequena e antiga escrivaninha, gravitei sobre o esplendor destes versos do grande poeta chileno:

Onde está a Guilhermina?

Quando minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.

Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido em hortelã.

Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.

Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, puídos, mortuários,
e eu andei de nuvem para nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.

Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.
Não tenho nada que acrescentar.
Vim viver para este mundo.
Onde estará a Guilhermina?

Sim, Pablo, este é o mundo que temos. E um poeta, como disseste, vive, além da sua, todas as vidas. E há pessoas e momentos que caminham connosco para sempre entre a plangente chuva do tempo. Descalças como nós na superfície das coisas tentam, enfim,  nunca perder nas cinzas o diamante da ternura.

Vamberto Freitas

Crítico literário e ensaísta, Vamberto Freitas acaba de lançar um novo livro de ensaios, Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado espelho. Por ocasião deste lançamento apraz-me ainda dar nota do seu novo blogue, “Nas Duas Margens”, de presença recente na Internet. Nele pode-se encontrar informações mais detalhadas no que concerne ao seu novo título, acima referenciado. Ao Vamberto Freitas aqui ficam os nossos sinceros parabéns.

Por favor ver aqui o blogue de Vamberto Freitas: http://vambertofreitas.wordpress.com/

 

Viagem sobre um corpo

Procuro no escuro as elevações e o delírio,
mas é a tua voz que me leva
ao fogo.
Atravesso a floresta e o mistério,
o sol mais bravo da noite.
Os teus cabelos ardem
sob a eternidade das minhas mãos.
Uma gaivota grita no silêncio das sombras.
O teu corpo ondula numa viagem
que me leva num barco de água branca
como se em cada setembro
dos teus murmúrios voltasses
com todas as rosas da madrugada
e uma gota de chuva
nas unhas.
Só no fim dos mais violentos relâmpagos
regresso dos teus olhos
nu e inocente como uma criança.

 

in “One Day Between Us”

Eduardo Bettencourt Pinto

Breve apontamento sobre “Que Paisagem Apagarás” de Urbano Bettencourt

 

Fotografia de Eduardo Bettencourt Pinto

 

Ocorre-me uma manhã luminosa no Funchal há uns anos atrás. À mesa do pequeno-almoço estavam  o Urbano Bettencourt,  o Miguel Moniz e eu. O sol, que parecia brotar das profundezas do mar, tocava os vidros da sala com um esplendor surreal. Era um relâmpago cristalino a banhar-se devagar nos copos de sumo de laranja. Descansava, enfim, em delícias mornas, no branco muito alvo da toalha de mesa.

A manhã era bela como são, aliás, todas as manhãs sob a pacificação dos lugares onde reverbera a poesia. A água azul da distância levava um barco, muito lentamente, num rumo de luz.

As vozes e os rostos dos nossos afectos fazem de um deserto um espaço habitável. Se estamos, como naquele momento, perante a sublimidade, então a circunstância de uma euforia ganha o perfil de um postal ou de um quadro de ressonâncias indeléveis.

Esta associação de ideias e memórias ocorreu-me enquanto lia o mais recente livro de Urbano Bettencourt, Que Paisagem Apagarás. Estaquei ante esta passagem:

“E dei comigo a pensar como será bom saber que, de cada vez que sucumbirmos ao íntimo chamamento do mar, uma voz de mulher há-de erguer-se para chorar-nos o destino e a perdição.”

Há, no conjunto dos textos que permeiam as suas páginas (desde a ficção à nota de viagem, por exemplo) uma harmoniosa hibridez de géneros literários. A leitura reparte-se por vários registos, é certo. No entanto, não se antagonizam; perfilam-se numa unidade exemplar que salienta o cuidado com que o autor pôs na sua organização. Não obstante os seus contornos próprios, os textos revelam um vector comum naquilo que é a marca inconfundível da mais do que afirmada escrita de UB: o estilo sóbrio e rigoroso. Na sua reverberação semântica encontramos segurança, finura no estilo,  e um perfil intelectual abrangente, tangível e coeso.

O devir inequívoco da sua mecânica criativa resulta em textos depurados, poéticos em certos momentos, e em cujo vínculo descobrimos ironia, humor, subtileza e elegância. E, derradeiramente, a sua emocionada humanidade.

Este título de Urbano Bettencourt, que se apresenta como um novo marco na sua já extensa bibliografia (poesia, narrativa e ensaio), revela um ficcionista de primeira água. Atente-se, por exemplo, neste diálogo entre Antero de Quental e Del Giudice no conto O comboio inexistente:

“ – Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas  – declarou Del Giudice, enquanto tentava surpreender no rosto do outro o efeito dessa confissão.
– Não creio que seja uma boa razão para viajar.
– A da mulher ou a minha?
– A sua. Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto. Mas lançar-se no encalço de uma mulher por causa disso já me parece uma intriga de novela de mistério.”

Perante a mestria narrativa patenteada neste novo título de Urbano Bettencourt, fica no ar esta pergunta e este desejo: Para quando um romance? Que Paisagem Apagarás é um livro delicioso que nos proporciona grandes momentos de prazer, nos comove, deslumbra e entretém.