Onde está a Guilhermina?

Acordo cedo, antes do mundo. Tenho por companhia uma chávena de café e livros, muitos livros. Estão disseminados por estantes, na mesa de trabalho, alinhados no parapeito da janela e contra os vidros. Qualquer dia revoltam-se: exigem um lugar mais condigno, o espaço branco e alto de uma biblioteca pública. Imagino uma guerra de palavras contra mim, um exército de impiedosos adjectivos.

Vivo numa ilha simbólica. Não avisto o mar ao abrir a porta de casa: deparo, sim, com uma madrugada húmida, soturna, a rua deserta e escura.

Uma corrente de água, diluvial, trava-me as intenções de sair. Algo de poético e misterioso corre pela rua escura e abandonada.

Observo, transido de frustração, como as folhas caídas na relva se perdem entre as árvores. Dançam, vulneráveis, sob as chibatadas frias e violentas dos ventos.

Chove com vingança e terror. Eternamente. Sinto no espírito impiedosos golpes de espada.

O Outono funesto força-me a regressar ao escritório. Descalço-me e ponho-me a ouvir Mozart.

Fecho os olhos. A música leva-me de mão dada pela memória. Fico imóvel, escondido na minha própria circunstância. Os minutos correm, lentos, profundos. Sinto-me a resvalar por um declive, como se uma névoa crescesse, lenta e incontornável sobre os olhos. Cruzo os braços no teclado do computador, ainda desligado. Descanso a cabeça, os pensamentos.

Acordo com uma dor no pescoço. Levanto-me e aninho-me na cadeira de espaldar. Estico as pernas. Reparo no jardim através da janela. Começa a clarear. Noto que a chuva abrandou. O CD de Mozart entretanto no fim. Levanto-me, tiro os auscultadores. Logo a seguir desligo o carregador de baterias da minha máquina fotográfica: a luz verde cintila na penumbra.

***

No Outono, quando as árvores se tornam num doirado flamejante, as manhãs e as tardes iluminam-se. A luz chama por nós devagar, como alguém que nos entrega as mãos e, nelas, todo o calor do coração. Esperava que hoje fosse um dia assim, de uma beleza estonteante. Não é.

Volto-me e reparo na estante. Corro as lombadas como quem vê a paisagem numa viagem de comboio. O abraço avança e a mão, cega, agarra um livro. É a Antologia Breve de Pablo Neruda, organizada e traduzida por Fernando Assis Pacheco.

Corro o índice com o dedo. Chama-me a atenção o poema Onde está a Guilhermina.

Comprei este livro em 12 de Janeiro de 1978, em Ponta Delgada, por 75 escudos, meses após a sua publicação. Deve ter sido na Livraria Gil, onde me abastecia com frequência.

Lembro-me de quanto esse poema me tinha arrasado. Li-o e reli-o até às lágrimas. Por estranha coincidência, chovia no meu quarto açoriano. Com o livro aberto na pequena e antiga escrivaninha, gravitei sobre o esplendor destes versos do grande poeta chileno:

Onde está a Guilhermina?

Quando minha irmã a convidou
e eu corri a abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.

Eu tinha catorze anos
e era orgulhosamente calado,
magro, severo, sisudo,
funéreo e cerimonioso:
vivia com as aranhas,
humedecido pela mata
conheciam-me os coleópteros
e as abelhas tricolores,
adormecia com as perdizes
metido em hortelã.

Então entrou a Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que atravessaram o meu cabelo
e me cravaram como espadas
contra as paredes do Inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá para o Sul, na fronteira.

Passaram lentos os anos
pisando como paquidermes,
regougando como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, puídos, mortuários,
e eu andei de nuvem para nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com o mesmo fato.

Caminhou o meu coração
com intransmissíveis sapatos,
e digeri muitos espinhos:
não tive tréguas onde estive:
onde eu bati, bateram-me,
onde me mataram caí
e ressuscitei com frescura,
e depois, depois, depois, depois
é tão longo contar as coisas.
Não tenho nada que acrescentar.
Vim viver para este mundo.
Onde estará a Guilhermina?

Sim, Pablo, este é o mundo que temos. E um poeta, como disseste, vive, além da sua, todas as vidas. E há pessoas e momentos que caminham connosco para sempre entre a plangente chuva do tempo. Descalças como nós na superfície das coisas tentam, enfim,  nunca perder nas cinzas o diamante da ternura.

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Um pensamento sobre “Onde está a Guilhermina?

  1. Quem poderá viver sem uma Luz?

    Mesmo na luz é urgente a Luz, a luz dos olhos ou das tranças da Guilhermina ou de outras Guilherminas, quantas vezes inventadas para podermos não soçobrar…

    Numa tarde de temporal a Luz é um som… Mozart ou Pergolesi, quem sabe?
    Sons, silêncios…luz, sombras…amores, desamores… sorrisos, mágoas… É a Vida! Simplesmente, a Vida…

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