Livraria

Truth is meaningless without context, without an environment.
– André Alexis

Entro na livraria pelo meio-dia. Procuro Light Lifting, contos do escritor canadiano Alexander MacLeod. Este seu primeiro livro, além de ter sido bem recebido pela crítica foi nomeado para o prestigioso Scotiabank Giller Prize.

Vem-lhe no sangue, ou nos genes, a arte de escrever. Filho do famoso escritor Alistair MacLeod,  autor de, por exemplo, No Great Mischief, Alexander apareceu no mundo literário com a segurança e a determinação de quem estava consciente do seu talento. Este título demonstra-o de modo inequívoco.

Corro, pois, a livraria. Dirijo-me às estantes, organizadas por ordem alfabética. Nada. No momento em que me volto, passa uma empregada. Peço-lhe ajuda.

É uma mulher ligeira, de meia-idade, cuja leveza lhe parece dar asas. Não anda, voa. Corro atrás dela até ao computador como um maratonista inexperiente a navegar na sua própria sombra.

Deita o meu papel ao lado do teclado e põe-se a escrever muito depressa. Baixa os olhos duas vezes a certificar-se.

– Desculpe, não temos.

Agradeço e vou meter-me no café, um lugar aprazível no fundo da livraria.

Constato, aliviado, que ainda há uma mesa disponível. Cinco tipos, estáticos como corvos num fio eléctrico, movimentam os dedos nos teclados dos computadores portáteis. Estão sentados para estar. Não mexem a cabeça, não respiram. Vivem suspensos de um mundo ulterior.

Apetece-me chegar ao pé deles e, na brincadeira, dizer-lhes:

– Os senhores desculpem mas vão ter que tomar um café cada quinze minutos. Temos poucas mesas e os clientes são muitos. Compreendem, não é verdade? Estamos aqui para fazer negócio e não para abrigar intelectuais. Para isso existem as bibliotecas.

Sorrio ao pensar nisto enquanto mexo o meu café com mel e canela. Eles, impassíveis, continuam na sua indiferença opressiva, alheios e compenetrados.

Penso como terei de reinventar o serão. Imaginava poder levar comigo os contos de Alexander McLeod e lê-los pela noite fora.

À saída paro junto a uma mesa, no corredor de entrada, onde estão vários livros expostos. Um prende-me a atenção, Asylum, de André Alexis.

Nascido na Trinidade, veio para o Canadá ainda criança. O seu livro Childwood (1998),  reflecte a simbiose entre dois mundos literalmente opostos. A escrita é elegante, viva, e leva-nos de arrastão pelas suas águas.

Assim chegou a noite. A luz do candeeiro descansa suavemente sobre as magníficas páginas de Asylum.

Entrei na livraria à procura de um estranho e acabei por encontrar um conhecido.

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