Mês: Novembro 2010

INVERNO E SOCIABILIDADE

Mergulho num sábado escuro enquanto a madrugada, devagar, se vai tornando manhã.

O Inverno galopa ao nosso encontro. Já nos trouxe muita neve na passada quinta-feira. É uma coisa atípica por estes lados do Canadá em Novembro. De repente uma calamidade branca diante de nós. Os hábitos triviais de cada dia transformam-se então em desafios, suspense e neurose.

Nunca experimentara com a «Cacilda», a minha velha carrinha Toyota, estas precárias condições de estrada. Os veículos com tracção às rodas traseiras são dançarinos imprevisíveis em piso escorregadio. Mas ela, garbosa na sua dignidade antiga, portou-se como uma dama elegante. Pregou-me algumas partidas, claro, como não podia deixar de ser. No fundo, porém, levou-me aonde eu queria sem queixumes e ressentimentos.

As flores, sob o inesperado impacto glacial, murcharam nos vasos da entrada. Como os braços de um homem sombrio, as hastes, pendentes, definham a olhos vistos. É triste vê-las assim, tanta luz que foram alumiando de fulgor os dias quentes do estio.

O Rocky, esgazeado como sempre, atirou-se para o quintal de trás sem o espanto e o júbilo com que, pela primeira vez, descobriu a neve. Até aos cães lhes aborrece a rotina.

Nesse dia estacou mal a porta se abriu. Parecia confrontado com um misto de espanto e susto. Nunca tinha visto tanta brancura na sua vida. Avançou com cuidado pela neve. Cheirou-a com faro terapêutico. Lambeu-a uma, duas, três vezes. Acabou por comer um bocado. Sacudiu a cabeça (brr!) e desatou numa corrida louca de um lado ao outro do quintal até não poder mais. Foi um delírio.

Não gosto do Inverno. Há um isolamento soturno nas pessoas que me aflige, um recolher obrigatório sazonal que não é de introspecção mas de alheamento. Quando penso nisto lembro-me sempre desta passagem lacónica de Jorge Luís Borges:

«O meu pai estreitara com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir as confidências e que muito em breve omitem o diálogo.»

Pois, as impressões de Borges.

Acho os ingleses pragmáticos, é claro, e socialmente fechados. Mas quem não é assim perante estranhos? Em quem confiamos? Se contarmos os dedos da mão esquerda acharemos o número exacto daqueles que são nossos confidentes. Os da direita estão demasiado ocupados para nos deixarem reflectir. Ou vice-versa, conforme se a pessoa é canhota ou não.

A confidencialidade é a virtude da confiança e do respeito mútuos. Os códigos sociais não albergam necessariamente formulações que manifestam (e dignificam) as mais elementares características da lisura de carácter. Os subtis atiram pedras de modo oblíquo; e aquilo que por vezes parece transparente não passa de uma encenação.

Cada um avança para o palco social da maneira como pode. Mas uma coisa é certa: quase ninguém se atreve a mostrar-se nu, metaforicamente falando. (Há casos de loucura programada mas esses fogem à regra). A morte do artista seria inevitável. O público, esse, exultaria. Até porque o triunfo do cínico e do coscuvilheiro, mesmo que assustadoramente efémero, resume-se a isto: julgando manipular os outros com as suas artes cavilosas, acaba sempre por beber o veneno da sua própria ostentação.

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Adeus, Bella

Bella Akhmadulina (Izabella Akhatovna Akhmadulina) nasceu em Moscovo em 10 de Abril de 1937. Deixou-nos hoje. Poeta, tradutora ensaísta, fica a sua obra notável.

Aqui deixo, como pequena e simbólica homenagem, um dos seus (muito belos) poemas.

 

Ladyzhino
Bella Akhmadulina

 

I had not been back for many years.
I often dreamed of foreign lands and faces
of people I once loved, the people who
were taken from me and from their native place.

There has never been the time to dream beyond
the horizon – but then yesterday I did.
On waking here, I thought: in no way strange
that soul should fly from body like a bird.

I have bartered you for this, friends
of a plundered heart picked clean as bone.
The sun joined you (my yesterday went out)
across the Oka in a forest dark like stone.

Night after night your tears saw me in Tarusa,
which for us both was the same as the real thing.
They found me there and did not go away:
the sweeter the dream, the harsher the awakening.

Now here is a new down, a day I send
to keep you up-to-date on how my heart breaks
every time I cross the snow and ice
of the chasm and dark forest that lie between us.

Look: I am walking into Ladyzhino.
The charms and catastrophes of home are plain.
O Aunty Manya, take pity on me, forgive
me everything I said and did not say.

You look embittered; your house is but a hovel;
my friends were taken from you, too, one night.
And still you say, “Don’t be so miserable.”
Oh, heart contains more misery than might.

Snow outside. An ikon, bench and table –
I hide my inside hell behind my sleeve.
“Ah, angel, welcome one, my prodigal,
no weeping, no laments.” I lament and weep.

Fragor

E vêm daí as marcas da sombra:
a trança solta ao sol de fevereiro,
uma mão cheia de vento sobre o teu ombro,
e o cão do crepúsculo a correr adiante de nós.
Como um destino,
leva consigo as últimas palavras
antes da noite.

 

 

 

O Pato Donald despediu a Violentina

Redondo, faces escarlates, queixo duplo e muito rico. Anda devagar como uma iguana. Quero dizer: arrasta-se lentamente. Não com o ventre mas com os seus pés miúdos, enfiados em sapatos italianos. Nesse esforço todo parece avançar com dificuldade, e aos solavancos, como se fosse o monte Evereste em movimento.
Mas neste momento ri-se, ri-se muito ao volante do Audi. A estrada, brilhante da chuva, recebe a luz dos faróis. De repente vira à direita em direcção a casa.
Espera-o a mulher, também volumosa, de chinelos e sorriso gasto.
– Boa noite também para ti! – diz irritada com a sua indiferença.
– Desculpa, vim todo o caminho a rir… Mas agora sinto-me irritado – atira ele para trás das costas. Margarida segue-o tentando perceber o que se passa.
– Então?
Pato Donald tem a cabeça dentro do frigorífico quando ouve a pergunta.
– Raios! Já não temos sumo de laranja?
– Bebeste tudo ao pequeno-almoço.
– E por que não compraste mais?
Fecha a porta do frigorífico com frustração. Depois dá um jeito ao corpo, vira-se, os joelhos tocam-se. Enfrenta por fim a mulher.
Margarida, apreensiva, nota-lhe o  aspecto cansado, vencido. Está ofegante, como se tivesse acabado naquele momento uma corrida à volta do quarteirão.
– Bebes tudo mais depressa do que eu compro – resmunga Margarida.
– Despedi a Violentina – confessa Donald, de repente, cruzando os braços.
– A Violentina? Como pudeste fazer uma coisa dessas? Uma rapariga que trabalha contigo há mais de vinte e é nossa amiga? Porquê, podes dizer-me?
– Olha, não tenho bem a certeza.
– Enlouqueceste, Donald?
Agora a mão direita repousa-lhe na anca. A luz do tecto faz reluzir a pérola do anel no indicador. O braço esquerdo sobe, eleva-se ao rosto. Ela deixa a palma da mão repousar na face numa expressão de incredulidade.
– Pois… Não é bem isso, Margarida – diz ele atrapalhado. Duas gotas de suor frio aparecem-lhe na testa.
– Despediste ou não despediste?
– Sim e não… Depois conto-te. O que há para o jantar?
Margarida ignora a pergunta do marido e dirige-se à banquinha do telefone.
– Está? É a Violentina?
– Sim. Margarida?
– Sim, querida. Olha, diz-me uma coisa: o Donald despediu-te?
– Não tenho bem a certeza… Ele saiu do escritório a rir, a rir, e eu com a carta na mão sem saber o significado daquilo tudo. Tenho-a aqui em casa, posso ler-ta. Queres que a vá buscar?
– Não é preciso, Violentina. Não faças caso. Ele deve-se ter esquecido de tomar os comprimidos.
in One Day Between US

No Jardim Semântico de Fernando Aires

A beleza vira-nos a alma do avesso e vai-se embora.
Eugénio de Andrade

Fernando Aires e Daniel de Sá

Convivi pouco com Fernando Aires. Na altura em que vivia em Ponta Delgada era amigo da Isabel, sua filha. Esta veio a casar-se mais tarde com o Chico, um amigo meu angolano.

Via-o passar de automóvel muito agarrado ao volante, o olhar atento ao tráfego, os cabelos de ancião cobertos de nuvens brancas. Logo desaparecia nas enviesadas ruas da cidade.

Já sentia Ponta Delgada como minha, por herança familiar e da memória. Também por todos os sentimentos nobres que assaltam o coração, em termos de afecto e transcendência.

Depois foi a vida, as asas de um avião e o vastíssimo território canadiano onde aportei sob o linfático desespero do apátrida. De batalha em batalha fui decifrando os códigos de uma outra realidade social. Capitulei por fim ao novo mundo quando este solo absorveu, com toda a sua generosidade, a brevíssima vida da minha filha Melissa e a do meu velho pai. Ficaram dele, aqui plantadas, uma macieira e uma camélia cuja presença deixou no quintal uma imensa e fresca sombra de esperança.

Ao cabo de longos anos acabei por fincar nesta terra a enferrujada espada dos meus combates mais íntimos. Dissipou-se assim a incendiária morbidez que arruinava o meu espírito.

Estava já neste lado do mundo quando começaram a aparecer os livros de Fernando Aires. Foi em 1988 que surgiu o seu livro de contos Histórias do Entardecer, na Colecção Gaivota da SREC. Seguiram-se Memórias da Cidade Cercada e A Ilha de Nunca Mais.

Foi no registo diarístico, porém, com o título genérico Era Uma Vez o Tempo que Fernando Aires fez cintilar a coroa da sua escrita. Por vezes plangente, arqueado sob o peso de um céu de penumbra e humidade, a ilha, nas suas páginas rasgadas, ganhou uma fulguração única nas Letras Açorianas.
Numa entrevista a José Leon Machado, A Criação Diarística em Fernando Aires, o autor adiantava as razões pelas quais se lançara à escrita de um diário:

“Com efeito, os cinquenta anos de idade coincidem, frequentemente, com uma crítica existencial. É a idade em que a gente se dá conta da vida a fugir. De repente, surge a convicção de que se está a entrar na velhice e é aterrador quando se pensa nisso a sério. A mocidade passou, começa a ameaça às coisas vitais que constituem a razão de viver: a saúde. A capacidade do amor plenamente sentido e partilhado. Os projectos de vida e de realização a longo prazo. Então a gente procura uma fenda na muralha  – a escrita de um diário pode ser resposta a isto”.

Nas minhas céleres visitas a S. Miguel tive oportunidade de o conhecer melhor. Na altura já septuagenário, revelou-me logo uma particularidade muito vinculada à sua personalidade: Fernando Aires não transmitia a placidez de um ancião em paz com a sua idade. O seu espírito, inconformado e rebelde, envergava uma insolúvel e abrasada fulguração romântica.

Eu compreendia o seu drama, que é o de todos nós: o de ficarmos mais sós quando o mapa da idade nos mostra as nossas pegadas ao longo das inexoráveis areias do Tempo. O crepúsculo aproxima-se lentamente, a imensa noite. Em cada novo dia espera-nos um deserto no espelho, a cada movimento do rosto, a cada sinal da nossa complicada e fragilíssima vida. Sentimos que um estranho nos olha de muito longe, dentro dos nossos próprios olhos. Não temos o rosto que somos por dentro mas aquele que se apoderou de nós subtilmente, enquanto dormíamos na memória o sono do que éramos e já não podemos ser. A efemeridade, sendo a penumbra que habita a nossa sombra, torna-se então mais visível, mais palpável. Somos os protagonistas a sépia de um tempo que vai morrendo lentamente em cada passo do nosso destino humano.

Quem admira os diários de Miguel Torga e Vergílio Ferreira não pode deixar de ler os de Fernando Aires. Ele está todo lá, sentado no banco das suas contradições — factual, poético, humano, cercado pela ilha por onde viajou com a beleza fulgurante das suas palavras.

Lembro-me hoje do mar, de uma manhã cinzenta e prodigiosa enquanto dialogávamos sobre Eça de Queiroz. Ouvíamos Beethoven. No céu de Ponta Delgada as gaivotas, em círculo, pareciam um remoinho de luz. Alguns pedestres no passeio da Avenida. Austero e fecundo nas suas opiniões, místico e filosófico, Fernando Aires era um conversador nato, profícuo e inolvidável.

Quando saí do seu carro para me refugiar nas brancas paredes da cidade, senti-me com o dever de guardar aquele momento com a solenidade que lhe era devida. Aqui estou a fazê-lo hoje, devagar, tentando não me esquecer de nada.