O Pato Donald despediu a Violentina

Redondo, faces escarlates, queixo duplo e muito rico. Anda devagar como uma iguana. Quero dizer: arrasta-se lentamente. Não com o ventre mas com os seus pés miúdos, enfiados em sapatos italianos. Nesse esforço todo parece avançar com dificuldade, e aos solavancos, como se fosse o monte Evereste em movimento.
Mas neste momento ri-se, ri-se muito ao volante do Audi. A estrada, brilhante da chuva, recebe a luz dos faróis. De repente vira à direita em direcção a casa.
Espera-o a mulher, também volumosa, de chinelos e sorriso gasto.
– Boa noite também para ti! – diz irritada com a sua indiferença.
– Desculpa, vim todo o caminho a rir… Mas agora sinto-me irritado – atira ele para trás das costas. Margarida segue-o tentando perceber o que se passa.
– Então?
Pato Donald tem a cabeça dentro do frigorífico quando ouve a pergunta.
– Raios! Já não temos sumo de laranja?
– Bebeste tudo ao pequeno-almoço.
– E por que não compraste mais?
Fecha a porta do frigorífico com frustração. Depois dá um jeito ao corpo, vira-se, os joelhos tocam-se. Enfrenta por fim a mulher.
Margarida, apreensiva, nota-lhe o  aspecto cansado, vencido. Está ofegante, como se tivesse acabado naquele momento uma corrida à volta do quarteirão.
– Bebes tudo mais depressa do que eu compro – resmunga Margarida.
– Despedi a Violentina – confessa Donald, de repente, cruzando os braços.
– A Violentina? Como pudeste fazer uma coisa dessas? Uma rapariga que trabalha contigo há mais de vinte e é nossa amiga? Porquê, podes dizer-me?
– Olha, não tenho bem a certeza.
– Enlouqueceste, Donald?
Agora a mão direita repousa-lhe na anca. A luz do tecto faz reluzir a pérola do anel no indicador. O braço esquerdo sobe, eleva-se ao rosto. Ela deixa a palma da mão repousar na face numa expressão de incredulidade.
– Pois… Não é bem isso, Margarida – diz ele atrapalhado. Duas gotas de suor frio aparecem-lhe na testa.
– Despediste ou não despediste?
– Sim e não… Depois conto-te. O que há para o jantar?
Margarida ignora a pergunta do marido e dirige-se à banquinha do telefone.
– Está? É a Violentina?
– Sim. Margarida?
– Sim, querida. Olha, diz-me uma coisa: o Donald despediu-te?
– Não tenho bem a certeza… Ele saiu do escritório a rir, a rir, e eu com a carta na mão sem saber o significado daquilo tudo. Tenho-a aqui em casa, posso ler-ta. Queres que a vá buscar?
– Não é preciso, Violentina. Não faças caso. Ele deve-se ter esquecido de tomar os comprimidos.
in One Day Between US
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2 pensamentos sobre “O Pato Donald despediu a Violentina

  1. Quero explicar melhor esta minha frase “…decrepitude”.

    As personagens de desenhos animados ou banda desenhada, são eternamente jovens. Aqui elas envelheceram num registo tão real, que até me assustou, nas asneiras que a velhice muitas vezes comporta…

    E ninguém pode saber se se safa… da decrepitude!!!

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