INVERNO E SOCIABILIDADE

Mergulho num sábado escuro enquanto a madrugada, devagar, se vai tornando manhã.

O Inverno galopa ao nosso encontro. Já nos trouxe muita neve na passada quinta-feira. É uma coisa atípica por estes lados do Canadá em Novembro. De repente uma calamidade branca diante de nós. Os hábitos triviais de cada dia transformam-se então em desafios, suspense e neurose.

Nunca experimentara com a «Cacilda», a minha velha carrinha Toyota, estas precárias condições de estrada. Os veículos com tracção às rodas traseiras são dançarinos imprevisíveis em piso escorregadio. Mas ela, garbosa na sua dignidade antiga, portou-se como uma dama elegante. Pregou-me algumas partidas, claro, como não podia deixar de ser. No fundo, porém, levou-me aonde eu queria sem queixumes e ressentimentos.

As flores, sob o inesperado impacto glacial, murcharam nos vasos da entrada. Como os braços de um homem sombrio, as hastes, pendentes, definham a olhos vistos. É triste vê-las assim, tanta luz que foram alumiando de fulgor os dias quentes do estio.

O Rocky, esgazeado como sempre, atirou-se para o quintal de trás sem o espanto e o júbilo com que, pela primeira vez, descobriu a neve. Até aos cães lhes aborrece a rotina.

Nesse dia estacou mal a porta se abriu. Parecia confrontado com um misto de espanto e susto. Nunca tinha visto tanta brancura na sua vida. Avançou com cuidado pela neve. Cheirou-a com faro terapêutico. Lambeu-a uma, duas, três vezes. Acabou por comer um bocado. Sacudiu a cabeça (brr!) e desatou numa corrida louca de um lado ao outro do quintal até não poder mais. Foi um delírio.

Não gosto do Inverno. Há um isolamento soturno nas pessoas que me aflige, um recolher obrigatório sazonal que não é de introspecção mas de alheamento. Quando penso nisto lembro-me sempre desta passagem lacónica de Jorge Luís Borges:

«O meu pai estreitara com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir as confidências e que muito em breve omitem o diálogo.»

Pois, as impressões de Borges.

Acho os ingleses pragmáticos, é claro, e socialmente fechados. Mas quem não é assim perante estranhos? Em quem confiamos? Se contarmos os dedos da mão esquerda acharemos o número exacto daqueles que são nossos confidentes. Os da direita estão demasiado ocupados para nos deixarem reflectir. Ou vice-versa, conforme se a pessoa é canhota ou não.

A confidencialidade é a virtude da confiança e do respeito mútuos. Os códigos sociais não albergam necessariamente formulações que manifestam (e dignificam) as mais elementares características da lisura de carácter. Os subtis atiram pedras de modo oblíquo; e aquilo que por vezes parece transparente não passa de uma encenação.

Cada um avança para o palco social da maneira como pode. Mas uma coisa é certa: quase ninguém se atreve a mostrar-se nu, metaforicamente falando. (Há casos de loucura programada mas esses fogem à regra). A morte do artista seria inevitável. O público, esse, exultaria. Até porque o triunfo do cínico e do coscuvilheiro, mesmo que assustadoramente efémero, resume-se a isto: julgando manipular os outros com as suas artes cavilosas, acaba sempre por beber o veneno da sua própria ostentação.

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Um pensamento sobre “INVERNO E SOCIABILIDADE

  1. Pois…
    …vou te entendendo…

    Sabes, a toca em que te abrigas no Inverno, é demasiado pequena para os teus anseios, mas, se a transformares num “covil” gigante, terás sem dúvida, companhia…
    Mas, e que companhia?
    Gentes da tua tribo? Gentes que te entendem? Gentes que falam a mesma linguagem, tem a mesma expressão corporal?
    Mas, quem?
    Não terás as gentes que tu queres, porque essas gentes não existem. Tu queres transparência para olhares e veres. Tu queres transparência, mas sabes que não é real.
    Como sabes que não é?

    Há vinte anos atrás tive um namorado que me disse: “Há tanta mulher fingindo ser como tu, autêntica, mas é tudo teatro, tudo se esboroa. Tu és a única genuína!”
    Na altura não percebi o alcance, porque julgava que as pessoas deviam e seriam verdadeiras. O Tempo encarrega-se de mostrar estas máscaras e derrubar os mantos que a envolvem. Percebi enfim, que quem teria que mudar seria eu porque, como dizia uma antiga professora: “eles não merecem a tua franqueza. Ficam de posse de parte da tua alma e não a merecem”… e eu preciso de passar incólume por entre os pingos da chuva…

    Pergunto: Será que se ganha alguma coisa sendo-se transparente? Haverá alguém que mereça a nossa transparência?
    Duvido.

    E, inexoravelmente o inverno vai estendendo os seus braços brancos e esquálidos…

    …e tudo vai perdendo o seu viço. Será?

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