Mês: Dezembro 2010

O Tarzan Taborda

Liceu Salvador Correia de Sá

Andava ainda descalço pelo quintal quando Tarzan Taborda apareceu em Luanda com uma fúria inverosímil. Temível no ringue de luta livre, os seus adversários pareciam mais vítimas do que oponentes à sua altura. Sofriam tareias de tal modo monumentais que alguns, os mais infelizes, acabavam num voo desgraçado pela plateia fora num itinerário de patos desgarrados cuja aterragem, brutal, tinha toda a aparência de uma aparatosa e inevitável catástrofe. O público, em delírio no Estádio dos Coqueiros, aplaudia de pé.

Eu não podia acreditar, no meio daquela turba ruidosa, que um ser humano fosse capaz de tanta valentia e prodígio físico. A verdade, porém, é que o Tarzan Taborda, com a sua tanga de pele de leopardo e músculos de pedra era um dos imbatíveis heróis da minha infância. Por isso estava eu ali, crente naquele jogo de forças descomunais e cujos combates representavam a realidade de um imaginário que só me era possível desfrutar nos filmes épicos e de cobóis que passavam nas deliciosas matinés da SMAE.

Era pois a idade de andar descalço, não obstante dispor dos «quedes» da fábrica Macambira, na Vila Alice, e das sandálias e dos sapatos que levava à igreja pentecostal todos os domingos. Mas quem era capaz de convencer-me a calçá-los? Eu era um menino negro de pele clara cujos pés recebiam com agrado e privilégio o afago morno daquela terra vermelha.

Era o tempo da liberdade e de uma eterna plenitude estival que nos amolengava atirando-nos para fora de casa. Até na estação fria, que se designava por o cacimbo, nos acompanhava um mormaço deleitoso. Sobre nós caía uma humidade aveludada e morna como se estivéssemos sob os efeitos de uma estuação eterna.

Foi com os angolanos negros que descobri que a inventividade existe em cada um de nós como forma de contornar as dificuldades mais elementares. Aprendi, por exemplo, a fazer papagaios de papel e canas de bambu, a rolar pelas ruas atrás de arcos de barril guiados com um arame, trotinetas com rolamentos de automóveis cujos funcionários da câmara tanto gostavam de confiscar, carrinhos de madeira com os quais fazíamos corridas loucas na descida íngreme em frente do Liceu Salvador Correia.

Tudo passou muito depressa. Cresci, saí de Angola e o Tarzan Taborda (Albano Taborda Curto Esteves) já faleceu. Deixou-nos em Setembro de 2005. Participou, ao longo da sua carreira, em mais de quatro mil combates. O último foi, segundo um artigo de João Saramago no Correio da Manhã de 10 de Setembro de 2005, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Além de lutador foi bailarino no Lido de Paris e fez de duplo em Hollywood. A sua última actividade profissional foi a quiropatia, tendo sido ainda o autor do livro Como Prolongar a Vida com Força, Saúde e Beleza.

Desapareceu o herói que alimentou histórias de valentia de muitos meninos angolanos da minha geração luandense. Uma página, enfim, que se fechou com o silêncio de uma folha cintilante de abacateiro caindo no chão da memória.

Google MapsWikipediaDictionaryAcronyms/AbbreviationsUrban/Slang Dictionary
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O MEU PAI NATAL ANGOLANO

O meu Pai Natal angolano foi sempre um homem pobre. Vinha de noite, muito tarde, entorpecido e cansado. Deixava um carrinho, e às vezes rebuçados, nas sandálias da minha infância.

Não trazia o pesado casaco nem o capuz do Pólo Norte a baloiçar-lhe nos ombros. Vinha de calções e suspensórios vermelhos sobre uma camisa interior branca. Cada passo era como uma onda do mar: cadenciado. Calçava chinelos de borracha e o trenó era uma velha bicicleta, igual a muitas que vi nas picadas do Sul guiadas por homens energéticos e afáveis. Deixava-a encostada ao muro da casa, cheia de pó dos longos e intermináveis caminhos da noite africana.

Eu dormia mal nessas noites antigas. Revolvia-me muito na cama, ansioso, numa vigília que culminava sempre com um rumor de passos. Eram tão leves que pareciam os da «Princesa», a nossa amorosa e fecunda gata.

Levantava-me devagar para não acordar o meu irmão Carlos. A cama rangia, os meus ossos. Invadiam-me o susto e a expectativa de tal modo que todo eu tremia. Espreitava aquela presença surreal suspenso de curiosidade.

Via então o Pai Natal sondar o escuro como um farol alumia a distância. Dos seus olhos corria uma ténue luz de pirilampo. Abaixava-me com cuidado para que não me visse. No entanto, queimava-me por dentro aquela vontade de correr ao seu encontro, abraçá-lo, e pedir-lhe que ficasse um pouco comigo. Precisava tanto que me explicasse por que gostamos de alguém de repente, que milagre acontece dentro de nós, que prisão?

Os rios sinuosos das emoções adejavam no meu peito e asfixiavam-me porque não tinham voz.  Eu levava dentro de mim o peso dos dias e a alegria selvagem do amor.  A ternura era uma espécie de caos, e eu nem sabia que essa palavra existia. Como poderia explicar o que sentia pela Olga, uma flor em movimento?

Ela era uma menina do meu colégio.  Eu morria quando ela estava longe; perto dela todos os momentos se iluminavam. Eu cantava com as minhas mãos porque tudo me parecia música e o mundo um jardim. Desejava tocar-lhe no rosto, abrir os dedos entre os seus cabelos, respirá-los, beijá-los. No recreio, extasiava-me ver como a luz, caída dos mamoeiros, a perseguia por todo o lado como fosse uma borboleta.

Eu gostaria que o Pai Natal me tivesse explicado tudo sobre a solidão e o êxtase. E o que mais tarde aprendi aos trambolhões pela vida fora: que o amor é um sentimento sem barreiras. Tanto é ave como beatitude e incêndio. E que nessa viagem há uma espécie de divindade que nos dignifica e sustém entre o deserto e as cinzas, a arbitrariedade e a melancolia.

Mas eu não podia aproximar-me dele. Se ele me visse, estava certo, nunca mais voltaria. Ficava-me pelo seu vulto, pois, agachado sobre as nossas sandálias. Contentava-me em observar os seus movimentos como numa cena em câmara lenta.

Quando ele se ia embora, silencioso como entrara, eu regressava ao meu reino de sombras.

A cama recebia-me então com o frio de um túnel abandonado. Imóvel e de olhos fechados, escondia a cabeça sob o lençol tentando adormecer.

No último Natal da inocência o Pai Natal não foi tão cuidadoso como nas outras vezes: fez barulho. Todos os seus movimentos demonstravam pressa.

A curiosidade fez-me aventurar um pouco mais. Foi então que lhe vi o rosto.

Já na minha cama, senti uma imensa vontade de chorar. Será que devia acordar o Carlos e dizer-lhe? Agarrei-me à almofada como um náufrago à bóia salvadora. E assim acabei por adormecer.

Pela manhã, à mesa do pequeno-almoço, o carrinho de plástico no colo, vi o meu Pai Natal angolano olhar para mim com os olhos do meu pai.

Poetics of Desguise (excerto)

Nunca tive uma secretária como a Adriane. Ao longo dos anos, trinta, já passaram algumas pelo meu escritório. Foram-se embora por razões distintas. Mas é aparente que as principais foram o horário e o volume de trabalho. Nalguns casos, a incompetência. Sou conhecido pela minha inflexibilidade. Admito falhas mas sou irascível em relação a questões de carácter; não suporto falta de proficiência, disciplina e dedicação ao trabalho. Pago bem mas exijo resultados.

Adriane nunca se deixou intimidar pelas minhas exigências. Respondeu sempre aos meus desafios com eficiência e rapidez. Habituámo-nos muito um ao outro. Somos uma equipa. Na idade em que estou não suportaria perdê-la. Se ela se despedisse, que razões teria eu para continuar aqui? Já não tenho paciência nem motivação para moldar outra pessoa ao meu ritmo, à minha forma de funcionar nesta profissão.

Gosto, sempre gostei do meu trabalho. Sou advogado por paixão. Confesso que é para mim uma espécie de jogo. Nunca descurei, porém, os valores nos quais acredito. Baseio-os nos factos e daí construo os meus argumentos, os mecanismos de defesa. E no entanto, acredito que nem sempre o que parece ser é. A realidade às vezes transcende a ficção.

Adriane ajudou-me a encontrar o balanço entre as diversas verdades com que nos diferenciamos uns dos outros. Como eu, defende os seus pontos de vista com paixão. É uma mente, diria, estimulante.

in One Day Between Us

Depois de ti

Mordo na tua boca as últimas palavras,
a maçã e a água das tuas sílabas.
A imensa cidade do destino está por trás de ti.
Vejo como chove de repente nos teus olhos;
é como se o verão se aproximasse do fim.
Tão escuro o sol de setembro;
então a alegria faz-se noite
e vais-te embora.
Um beijo é o deserto onde me perco,
cego mais uma vez
e para sempre.

Quanto pesa o silêncio
depois de ti?
Quantos calendários incendiados
no fragor da melancolia?
Apago-me devagar
nos labirintos do teu nome.
O que é isto se não a memória
a correr como uma criança
neste jardim que cresce como se fosse música
no deserto mais vasto do coração.

in One Day Between Us

Livros e neve

Os meteorologistas preconizam um Inverno muito rigoroso para a nossa província (British Columbia), como já não acontece há cinquenta anos. Segundo eles, trata-se de previsões baseadas nos efeitos de La Niña: (http://en.wikipedia.org/wiki/La_nina). Como é evidente, não foi notícia que me agradou.

Não capitulo perante coisas assim, é claro. Organizo-me. Há que ter em conta o aspecto prático das coisas. Como, por exemplo, cobrir com plástico a estátua do jardim, abastecer-me de sal para espalhar no gelo, e comprar novas pás para limpar a neve.

Estou mais preso à casa. Já não ando tanto de bicicleta, o seguro da mota caducou, e mesmo que ainda estivesse vigente duvido que me acavalasse nela de encontro às temperaturas gélidas que nos assaltam. Sou homem do Verão, do calor e do sol.

De modo que isolo-me, logo após o trabalho, neste escritório. Escrevo, leio, penso. Oiço música. Recolho-me tarde e com pernas de borracha por estar tantas horas sentado. E assim se repetem os dias com uma ou outra variante.

É por esta altura que os livros entram pela minha casa como seres em fuga. Alinho-os à medida que vão chegando; é por essa ordem que os leio.

Aqui deixo uma pequena lista, como quem oferece um cesto de fruta, muito fresca e olorosa.

– Onésimo Teotónio Almeida O Peso do Hífen (Ensaios sobre a experiência luso-americana);
– Howard Jacobson The Finkler Question (2010 Man Booker Prize winner);
– Vamberto Freias Imaginários Luso-Americanos e Açorianos – do outro lado do espelho;
– Aida Baptista | Manuela Marujo Passos de Nossos Avós;
– João-Luís de Medeiros Canteiro da Memória – o rosto enrugado da espera;
– Antonieta Preto Chovem Cabelos na Fotografia;
– Johanna Skibsrud The Sentimentalists (2010 Giller Prize winner);
– Charles Bukowski Portions From A Wine-Stained Notebook;
– Paul Harding Thinkers (2010 Pulitzer Prize Winner);
– Václav Havel To the Castle and Back;
– Manolis Yannis Ritsos Poems (translated by Manolis and edited by Apryl Leaf);
– Nelson Mandela Conversations with Myself;
– Jás Elsner Imperail Rome and Christian Triumph;
– Steve Striffler In the Shadows of State and Capital;
– Paulo Kellerman Chega de Fado;

Da amizade e das feridas que ficam

Mário Machado Fraião

Uma semana de recesso. Pequenas coisas aqui e ali, saídas breves, pontuais e sem grandes expectativas. O tempo, aliás, não tem permitido muito: chuva insistente, dias soturnos, cinzentos e de uma morbidez incontornável.

Para quê jornais e televisão se as notícias apenas nos trazem ora imagens de morte ora deste pesadelo económico que nos vai empobrecendo a carteira e o ânimo? Tenho a caixa de imagens fechada. Não me apetece. Não quero.

Oiço Beethoven em honra (e memória) de dois amigos recentemente falecidos: Fernando Aires e Mário Machado Fraião. Eram ambos açorianos. O primeiro de S. Miguel e o segundo do Faial.

Sobre Fernando Aires já deixei um depoimento neste blogue. Mas em relação ao Mário, a quem igualmente estimava, não fui capaz. Foi demasiado chocante e imprevisto.

Conheci-o há anos na magnífica e lindíssima ilha de S. Jorge durante um encontro de escritores. Impressionou-me a sua melancolia e o ar triste de pássaro desorientado.

Notei desde logo que do seu olhar partiam mariposas. Quando poisavam nas imagens pareciam cair delas grossas lágrimas de silêncio. Era um homem que atravessava neblinas com todo o ser – errante, peregrino e reflexivo.

Mais tarde (meses, anos?) vi-o em Lisboa na Casa dos Açores. Era o mesmo de sempre: o ar grave e soturno, correcto embora, e de uma inteligência sem exibições pois ele não precisava de palco para sentir-se realizado.

Telefonava-me de vez em quando da sua vida lisboeta. Tínhamos conversas breves porque ele andava sempre a correr, até com a voz. Mandou-me livros, pequenos bilhetes com a sua caligrafia de professor e de poeta do mar.

De repente, neste Outono, despediu-se. Foi-se embora, suponho, porque não cabia neste mundo. Não havia luz suficiente que o levasse para dias mais alegres. Guardava no coração uma nuvem cheia de água, tempestades que ninguém via, o ranger de portas antigas. Por isso é que chovia, chovia quase sempre nas suas palavras quando falava.

Modesto e humilde, caiu como uma pomba num telhado alto e sem as vistas e os holofotes dos media. Até nisso não quis incomodar ninguém. Para quê diluir-se no emaranhado das colunas dos jornais? Que benefícios?

Ele era um poeta perdido na cidade. Entre os olhos e as lentes dos óculos escondia um segredo:  a sua ilha.

Assim foi inventando um país de poesia entre a casa e o trabalho. Habitou-o, creiam-me, com a nobreza de um príncipe.

Mas quem pode sobreviver sozinho num jardim de palavras?