Da amizade e das feridas que ficam

Mário Machado Fraião

Uma semana de recesso. Pequenas coisas aqui e ali, saídas breves, pontuais e sem grandes expectativas. O tempo, aliás, não tem permitido muito: chuva insistente, dias soturnos, cinzentos e de uma morbidez incontornável.

Para quê jornais e televisão se as notícias apenas nos trazem ora imagens de morte ora deste pesadelo económico que nos vai empobrecendo a carteira e o ânimo? Tenho a caixa de imagens fechada. Não me apetece. Não quero.

Oiço Beethoven em honra (e memória) de dois amigos recentemente falecidos: Fernando Aires e Mário Machado Fraião. Eram ambos açorianos. O primeiro de S. Miguel e o segundo do Faial.

Sobre Fernando Aires já deixei um depoimento neste blogue. Mas em relação ao Mário, a quem igualmente estimava, não fui capaz. Foi demasiado chocante e imprevisto.

Conheci-o há anos na magnífica e lindíssima ilha de S. Jorge durante um encontro de escritores. Impressionou-me a sua melancolia e o ar triste de pássaro desorientado.

Notei desde logo que do seu olhar partiam mariposas. Quando poisavam nas imagens pareciam cair delas grossas lágrimas de silêncio. Era um homem que atravessava neblinas com todo o ser – errante, peregrino e reflexivo.

Mais tarde (meses, anos?) vi-o em Lisboa na Casa dos Açores. Era o mesmo de sempre: o ar grave e soturno, correcto embora, e de uma inteligência sem exibições pois ele não precisava de palco para sentir-se realizado.

Telefonava-me de vez em quando da sua vida lisboeta. Tínhamos conversas breves porque ele andava sempre a correr, até com a voz. Mandou-me livros, pequenos bilhetes com a sua caligrafia de professor e de poeta do mar.

De repente, neste Outono, despediu-se. Foi-se embora, suponho, porque não cabia neste mundo. Não havia luz suficiente que o levasse para dias mais alegres. Guardava no coração uma nuvem cheia de água, tempestades que ninguém via, o ranger de portas antigas. Por isso é que chovia, chovia quase sempre nas suas palavras quando falava.

Modesto e humilde, caiu como uma pomba num telhado alto e sem as vistas e os holofotes dos media. Até nisso não quis incomodar ninguém. Para quê diluir-se no emaranhado das colunas dos jornais? Que benefícios?

Ele era um poeta perdido na cidade. Entre os olhos e as lentes dos óculos escondia um segredo:  a sua ilha.

Assim foi inventando um país de poesia entre a casa e o trabalho. Habitou-o, creiam-me, com a nobreza de um príncipe.

Mas quem pode sobreviver sozinho num jardim de palavras?

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Um pensamento sobre “Da amizade e das feridas que ficam

  1. “Era poeta o Mário…

    Pediu-me
    este verão
    para pintar alguns dos seus poemas…

    e foi-se, tão cedo,
    tão frágil, tão etéreo…

    a Vida não o consentiu mais…

    e os poemas agora morrem sós, solteiros…
    sem cenário,
    sem o lado de trás que os acolhia e protegia…

    Mário, tão frágil, partiste…
    e foste só
    no caminho que a sombra da tua vida te levou.
    Sê estrela, agora!!!”

    (escrevi isto, aquando da sua morte, a 8 de Nov 2010)

    Acrescento agora:

    …e este rapaz partiu. Deixou palavras e levou todas as outras que não disse.

    Era tão tímido… falava baixo como se pedisse autorização para falar. A Vida não lhe deu alento afectivo e ele foi-se sem provar a loucura do não dever fazer. Era um príncipe nublado, com medo de se mostrar.

    E partiu, sem ao menos ter sido feliz… É isso que me doi!

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