O Tarzan Taborda

Liceu Salvador Correia de Sá

Andava ainda descalço pelo quintal quando Tarzan Taborda apareceu em Luanda com uma fúria inverosímil. Temível no ringue de luta livre, os seus adversários pareciam mais vítimas do que oponentes à sua altura. Sofriam tareias de tal modo monumentais que alguns, os mais infelizes, acabavam num voo desgraçado pela plateia fora num itinerário de patos desgarrados cuja aterragem, brutal, tinha toda a aparência de uma aparatosa e inevitável catástrofe. O público, em delírio no Estádio dos Coqueiros, aplaudia de pé.

Eu não podia acreditar, no meio daquela turba ruidosa, que um ser humano fosse capaz de tanta valentia e prodígio físico. A verdade, porém, é que o Tarzan Taborda, com a sua tanga de pele de leopardo e músculos de pedra era um dos imbatíveis heróis da minha infância. Por isso estava eu ali, crente naquele jogo de forças descomunais e cujos combates representavam a realidade de um imaginário que só me era possível desfrutar nos filmes épicos e de cobóis que passavam nas deliciosas matinés da SMAE.

Era pois a idade de andar descalço, não obstante dispor dos «quedes» da fábrica Macambira, na Vila Alice, e das sandálias e dos sapatos que levava à igreja pentecostal todos os domingos. Mas quem era capaz de convencer-me a calçá-los? Eu era um menino negro de pele clara cujos pés recebiam com agrado e privilégio o afago morno daquela terra vermelha.

Era o tempo da liberdade e de uma eterna plenitude estival que nos amolengava atirando-nos para fora de casa. Até na estação fria, que se designava por o cacimbo, nos acompanhava um mormaço deleitoso. Sobre nós caía uma humidade aveludada e morna como se estivéssemos sob os efeitos de uma estuação eterna.

Foi com os angolanos negros que descobri que a inventividade existe em cada um de nós como forma de contornar as dificuldades mais elementares. Aprendi, por exemplo, a fazer papagaios de papel e canas de bambu, a rolar pelas ruas atrás de arcos de barril guiados com um arame, trotinetas com rolamentos de automóveis cujos funcionários da câmara tanto gostavam de confiscar, carrinhos de madeira com os quais fazíamos corridas loucas na descida íngreme em frente do Liceu Salvador Correia.

Tudo passou muito depressa. Cresci, saí de Angola e o Tarzan Taborda (Albano Taborda Curto Esteves) já faleceu. Deixou-nos em Setembro de 2005. Participou, ao longo da sua carreira, em mais de quatro mil combates. O último foi, segundo um artigo de João Saramago no Correio da Manhã de 10 de Setembro de 2005, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Além de lutador foi bailarino no Lido de Paris e fez de duplo em Hollywood. A sua última actividade profissional foi a quiropatia, tendo sido ainda o autor do livro Como Prolongar a Vida com Força, Saúde e Beleza.

Desapareceu o herói que alimentou histórias de valentia de muitos meninos angolanos da minha geração luandense. Uma página, enfim, que se fechou com o silêncio de uma folha cintilante de abacateiro caindo no chão da memória.

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