Mês: Janeiro 2011

José Saramago, Moçambique e eu

Na secção de livros do jornal The Globe and Mail, de 18 de Setembro de 2010, vem uma recensão encomiástica ao livro de José Saramago, The Elephante’s Journey. O texto é de Janice Kulyk Keefer, escritora e professora de inglês na Universidade de Guelph, Ontário, Canadá.

Gostei da surpresa. No entanto, não me admirou a presença do Nobel português no mais influente jornal canadiano. Habituei-me a encontrar livros seus um pouco por todo o lado – em aeroportos dos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, bem como em livrarias de Vancouver e Toronto. Até em S. José, Costa Rica, há uns anos atrás, vi livros seus em espanhol. Encontrava-me num olvidável centro comercial numa tarde ociosa e cinzenta, um dia após a chegada, quando dei com a livraria.

Saramago é de facto um escritor à escala internacional. Uma coisa é ter um ou mais livros traduzidos numa certa língua; outra, ver a sua obra reconhecida nos países (ou país) para os quais foram traduzidos. Já conversei com académicos canadianos que me falaram dele com admiração. Mostraram igual apreço por Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.

Curiosamente, neste Verão, num alfarrabista de Burnaby, tive nas mãos uma edição em inglês de Os Maias. Encontrei-o na secção dos clássicos mundiais. Estremeci com o achado pelo grande afecto que tenho pela minha língua. Suponho que um estrangeiro teria o mesmo sentimento se encontrasse, por exemplo, num alfarrabista de Lisboa, um livro do seu escritor favorito traduzido para português.

Outro autor português contemporâneo que se tem vindo a salientar fora do país é António Lobo Antunes. Já o vi mencionado em publicações literárias no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e México. O Portugal literário vai crescendo muito para além das suas fronteiras físicas e linguísticas. Depois há os mais novos, portugueses e lusófonos, como Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Escritores credenciados em Portugal e na lusofonia e já com certa visibilidade no estrangeiro, sobretudo na Europa.

O venerável Paulo Coelho (goste-se ou não dele) é, de todos, o autor de língua portuguesa mais divulgado à escala universal. O escritor brasileiro é, na verdade, um caso estranho de imparável popularidade. Está traduzido em 67 línguas e tem mais de 100 milhões de livros vendidos. É obra.

Conheci José Saramago ainda fresco do Nobel no ano 2000, em Maputo, no decurso das Pontes Lusófonas II. Trazia consigo o peso desse reconhecimento e a postura de um homem maduro, seguro de si, e com um certo ar de patriarca das Letras.

Eu nunca tinha estado em Moçambique, país de excelentes poetas como José Craveirinha, Luís Carlos Patraquim, Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar, Sebastião Alba e Eduardo White, entre outros. Cheguei a Maputo arrasado após um périplo por Londres, Lisboa, Joanesburgo até chegar, por fim, ao meu destino final.

Não foi a melhor altura, confesso, para conhecer José Saramago: ele estava azedo, irritado, quase inacessível. Ríspido. Além disso, vê-lo em pessoa chocou-me: era tão parecido com o meu pai que mais me pareceu um tio até ali desconhecido do que um estranho.

Eu tinha perdido o meu pai recentemente e o encontro emocionou-me. Essa impressão inibiu-me um tanto, acrescida do facto de o encontrar num estado de espírito pouco receptivo. Estávamos no autocarro que nos ia levar ao hotel Cardoso, e eu tinha comigo o seu livro Blindness, que viera a ler na minha viagem até Moçambique. Foi pouco simpático quando lhe pedi um autógrafo. Fê-lo noutra ocasião, porém, quando o encontrei mais calmo e bem-disposto. Eu não sou um caçador de autógrafos, esclareço. Mas a oportunidade deparou-se-me e eu pensei que seria, para os meus filhos, uma boa recordação ter o autógrafo do primeiro Nobel de língua portuguesa. Foi em nome deles, aliás, que o pedi.

Não fiquei com má impressão de José Saramago por causa disso. Compreendo que todas as pessoas têm os seus maus momentos e, infelizmente, por vezes somos arrastados neles. Tive pena, sim, de não ter tido ocasião de conversar com ele noutro lugar e noutras circunstâncias.

Acompanhei as suas polémicas através dos media, admirando-lhe a coragem e a frontalidade, não obstante divergir de alguns dos seus pontos de vista, mormente aqueles que tinham a ver com Deus. Mas a verdade é que ele foi um escritor interventivo e que se ocupou com muita paixão dos problemas e das contradições do seu tempo. Uma voz que, infelizmente, já não temos. Além de nos ter sacudido por dentro, enriqueceu-nos de uma ou outra maneira.

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