Mês: Fevereiro 2011

O sol

Quatro horas e quarenta e cinco minutos de avião para ver o sol e  o mar. A manhã, tão “hermosa”, canta pelos cantos e entre as buganvílias que trepam os muros. A pele tonificada, o espírito a evadir-se como as aves deste México ao qual vou amando devagar, descobrindo nos seus contornos uma nova dança de sentidos.

Daqui a pouco saio do café. Estou aqui à procura de uma história, isto é, a revê-la dentro de mim. Não há fantasmas nos meus olhos. Apenas esta sede imensa de correr pelas cores do mundo acariciando o indelével.

Tanto amor que sinto pelas coisas impossíveis!

Uma história, sim. Com sol por cima e mar ao fundo e protegido com doçura pela sombra de uma palapa.

Intermitência

Hoje choveu tanto que a terra parecia afogar-se sob uma intransigente sensação de vazio.
Foi uma floresta de água fria e uma escuridão de pássaros emudecidos.
Passei pelo dia numa vertigem quase esquecido de que há vida, sol, mar e emoções.
O Inverno é um túmulo que nos aproxima do rancor, nos converte no magma mais escuro.
Quero Setembro na ilha da minha mãe; quero ouvir um poema da tua boca,
o som rouco das pedras mais íntimas.
Há dias em que a arte nos ilumina de esperança,
esse abraço invisível que nos enreda o peito de cintilações.
Mas só esse poema, o dos teus lábios, poderia salvar-me
deste terrível crepúsculo de sombras que foi o meu dia.

Errâncias

México ou aquela praia ardente da Costa Rica onde vi chorar, junto à água do mar, o cão mais triste do mundo?
Não sei. Faço literatura com a minha própria vida e invento em cada passo um país de ressonâncias e afectos. Quero ir-me embora, abraçar a poeira dos caminhos, o sol, e beber num pátio, entre estrangeiros como eu, a última luz do dia.

Vem comigo.

Leituras

Leio vários livros ao mesmo tempo. Alguns prendem-me, outros cansam-me e alguns aborrecem-me. Fecho-os e tento esquecê-los. No entanto, e não obstante os “road blocks”, volto sempre a eles, aos chatos, até à última página. Há sempre a esperança de encontrar uma linha que mos recorde, e que, enfim, me traga a memória e a sensação de algo inolvidável.

A verdadeira arte é empática, não é um exercício do umbigo a querer sugerir “olhem para mim” a cada instante. Leio porque amo o silêncio e para descobrir outros mundos e novas sensações. Poetas como Eugénio de Andrade, Emanuel Félix, Rui Knopfli, Herberto Hélder e Vitorino Nemésio, entre outros, fazem-me sentir um enorme orgulho pela minha Língua. Com García Lorca e Eugénio de Andrade, por exemplo, aprendi que a palavra escrita pode também cantar entre as nossas mãos, entre os nossos olhos.

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Leio agora dois livros: O Peso do Hífen de Onésimo Teotónio Almeida e The Imperfectionists de Tom Rachman. Companhia admirável num sábado de chuva.

Identidade

O meu lugar é nenhum lugar: não sou angolano, não sou português, não sou canadiano. Sou uma aparência humana no espelho do tempo com o nome dos meus mortos no subconsciente. Caminho num mundo de referências e que é um labirinto. Escrevo para não morrer dentro de mim, para dar raízes às minhas mãos. Deus é o meu País. Cresço com a Primavera e apago-me no Outono. Vivo num ciclo de luz e sombra. E assim vou partindo deste mundo, cansado dele: devagar e sem rancor. Feliz, quero dizer, à medida da felicidade emprestada que é ter um pouco da terra dos outros na ponta dos meus dedos, que tanto, tanto amam.
E assim me escondo na névoa destruindo paradigmas.