Mês: Março 2011

Memória

Uma mochila, o sol branco, imenso da manhã.
Um livro aberto sobre os joelhos. Um sumo de goiaba.
Dois pelicanos cruzam a baía.
Para quê a memória?
Trago-a para que estejas agora e sempre comigo.

O homem do rio

Está sentado numa pedra junto ao rio Cuale. Os seus murmúrios caem na água como fragmentos de luz. São iridescentes. Mas logo se afundam como se fossem peixes.

A manhã passa na voz de dois rapazinhos a caminho da escola.

Estou no México e vejo como um homem, sentado numa pedra, agradece a Deus mais um pedaço de efemeridade.

Café

Entram e saem do café rostos tocados pela cor da noite. Uma mão poisa no meu ombro como uma gaivota. Não é ninguém mas o Tempo, esse túnel por onde se escoam todos os domínios da nossa fragilidade.

Estou aqui e estarei. Estou sentado na pedra da minha noite num café barulhento. Tenho comigo o meu computador e toda a minha vida.

Escrevo rente ao caos. Quero compreender as palavras, aquelas que voam de mim e deixam um ressoo de viagem nos meus dedos.

Estou nesta cidade que se cruza comigo nos seus domínios mais sombrios. Penso no cheiro das goiabas – o sul era assim, um odor de alegria tão breve como um pingo de água.

Penso num beijo perto do mar porque escrevo.  Penso e sinto os rios de ser homem enquanto todos os estranhos do mundo bebem café ao meu redor e se afastam devagar no silêncio das minhas palavras.