Mês: Maio 2011

Depois do crepúsculo

Noite de sexta-feira: contos de Júlio Cortazar sob a luz do candeeiro, e Raicilla, La Taberna, tequila (artesanal) de San Sebastian del Oeste. Comprei-a nas montanhas sob um feroz ataque de mosquitos e um sol que cortava a tiras a paisagem. Foi um momento feliz: o cheiro da terra e das árvores, a amabilidade dos interlocutores, o pó da estrada que me fez lembrar África, ou seja, o Sul, sempre tão majestoso como o templo mais simbólico do mundo.

O gosto das goiabas

The most beautiful thing we can experience is the mysterious. It is the source of all true art and science.
– Albert Einstein

Pedro, a iguana, repousa nos braços de Valentim. Ambos passam o dia na praia à espera de turistas.

Vi-os ontem ao sair do barco. Valentim aproximou-se e estendeu-me o Pedro.

— Pega nele — disse. — Podes estar descansado, é manso. Não te vai morder.

Os lagartos, por muito inofensivos, causam-me repulsa. Na ardência do Verão apareciam no quintal dos meus tios Guilherme e Veneranda em Ponta Delgada. Assomavam, lépidos e desconfiados, por entre as fendas das pedras do negro muro de magma. Uma descarga eléctrica neutralizava-me a espinha ante aquelas repentinas aparições.

Depois cresci, quero dizer, saí da infância. No entanto permanece, desde então, uma espécie de náusea quando esses súbitos relâmpagos de quatro patas surgem do vazio.

Valentim avançou um passo e eu recuei. Pedro, indiferente, nem sequer reparou em mim.

— Tenta, tenta! — desafiou Valentim.

Tinha agora um sorriso irónico. Via medo em vez de repugnância. Não sabia como explicar-lhe sem ofendê-lo: a sua ternura pelo bicho era paternal.

Senti o rebentar de uma onda nas minhas costas. Antes que se molhasse, peguei na mochila e afastei-me.

Um sol, límpido e cristalino, recebia-me enquanto avançava praia fora. De chofre, no peito, uma brisa fresca.

Voltei-me antes de me perder nas escadas. Descobri Valentim aproximando-se de um grupo de turistas que saía de uma lancha. Um ponto branco ao fundo — calças, camisa e sandálias. Até o chapéu de abas largas.

O dia passou com os seus fascínios breves. Antes, porém, que a noite me surpreendesse, apareceu Mariel.

Vinha da cascata, os pés húmidos enfiados em sapatos vermelhos de borracha, os lábios roxos. Ria, ria, como se tivesse assistido a uma comédia na montanha.

— Mucho, mucho frio!

Um cão estacou assustado. Eu também. Os dois mexicanos que conversavam encostados ao muro endireitaram-se. O mundo parou um segundo. Depois o cão fugiu.

Eu fiquei na esquina, preso às gargalhadas da franco-canadiana que dizia repetidamente, “água mucho, mucho frio!”
Trocámos um diálogo olvidável e depois fomos tomar café.

Era um lugar escondido entre as árvores cujo acesso, por velhas e íngremes escadas de madeira, levava a um tesouro. A vista, extraordinária, prendeu-me com todo o seu esplendor.

Mariel compreendeu o meu êxtase.

— É por isso que venho aqui…

Na mesa ao lado estava um casal de meia-idade. Reconheci a senhora, quero dizer, os seus cabelos. Caíam-lhe a meio das costas. Eram tão brancos que pareciam a espuma da manhã. Toda a sua alvura, da cabeça aos pés, surgiu-me como uma aparição quando o barco se aproximava da praia. Estava sobre uma rocha, os braços abertos, levantados ao céu.

Sentada agora sob a fresca sombra de um tecto de colmo, tão próxima e ao alcance de uma palavra, perdia todo o seu mistério.

Preferia guardá-la na imagem da baía com o voo em flecha de um pelicano. E a brisa a apertar-lhe o vestido contra o corpo, a moldá-lo como a uma estátua. E o mar, todo o azul do mar cantando aos seus pés.