Mês: Junho 2011

Percurso

Canto devagar rente ao chão, próximo das ervas nocturnas. As minhas mãos dançam sobre a pele, desenham as linhas secretas de um corpo no branco volume do mistério.

Persigo agora as imagens e os espelhos, este todo de humanidade, caos, matéria e espírito. Dou a volta ao universo e regresso a este momento em que atravesso, despreocupado, a rua mais antiga da minha vida.

Books

O livro, o papel, o marcador de páginas. O cheiro. São tudo elementos tradicionais aos quais estamos ligados desde sempre.  Agora o ebook atravessa-nos o caminho. Palavras por impulso eléctricos em vez de impressão a tinta.

Os códigos sentimentais que nos ligam à impressão tradicional do livro persistem e ficarão connosco por muito tempo. Mas vejo vantagens no ebook e naquilo que, com a evolução tecnológica, se pode transformar.

Agrada-me a ideia de passear pelo mundo com uma biblioteca na mochila.

Noite

À noite as horas adormecem no relógio. Rodeado de livros e silêncio, o zumbido do Mac gravita sob a febril luz do candeeiro.

A noite –  que  labirinto de ruas acesas de escuridão!

Escrever? Falar dos meus antepassados cujas fotografias habitam os meus genes?

Quando nos vamos afastando de nós próprios e dos outros? O que somos na paisagem dos dias?

Estou sem respostas. Acudam-me:  viajo com abutres pelo calendário do meu deserto.

Na floresta, quem diria!

Regresso hoje ao turvo panteão da alegria. Trago uma guitarra, um cobertor para estender o corpo exausto, a minha pele de sáurio e o meu espírito de ave. O luar é um círculo de tempestades entre os ramos que me cobrem.

Não procures por mim nesta floresta. Há um lince à minha porta e dois cães de fila. Os meus inimigos protegem-me contra o imponderável.

Canto entre as árvores altas, o calor e as lendas. Canto e afogo-me em recordações.

Podia contar-te uma história de sangue e aventuras. Ou apertar-te contra mim, dar-te os frutos das mais belas palavras. Mas quem se aventura com um forasteiro, distante e irascível, cansado de um mundo sem coração?

Parti, amiga, com o sol da manhã. Pensa no meu nome na oculta peregrinação do poema, no homem que encontras encostado a uma palmeira na tarde mais alta dos dias.

Sou para sempre o labirinto e a obstinação da pedra. Não tenho quadros na parede nem cadeiras vazias. Vivo entre o sortilégio da água e o esplendor da águia.

Mas hoje, tão tarde no meu silêncio, regresso aos teus olhos para adormecer contigo.

Boa noite.