Mês: Setembro 2011

Breves esplendores da música

Tão doce o limão entre os dedos. Albinoni e os seus adágios, algo melancólicos, é certo, correm os auscultadores que me governam este momento. Os pássaros, esses, desenham no azul uma linha de silêncio.

Vejo na poesia a cinza de muitos passos e um vale de agitações. Sinto para estar vivo. Sinto para me deitar de bruços sobre a relva  das pequenas coisas que a vida moderna abandona como se fossem cães sem préstimo de um país sem coração.

Tão doce a pele de uma mulher. Tão doces os seus olhos brilhantes que cobrem a água de esplendor. Tão doces os seus cabelos que bailam sob a brisa de Setembro e deixam um perfume de desejo nesta sombra que passa por entre as minhas mãos a caminho do mar.

Tão doce sentir tanta, tanta ternura.

Regresso

 

Ao contrário das aves, regresso em Setembro. As tardes são altas, iluminadas, e uma tonalidade de oiro atravessa com júbilo os vidros do balcão. Sentado, leio.
Venho de uma longa viagem de bicicleta – 700 quilómetros. Tive momentos de alegria selvagem, raiva, saudade, dores nas pernas e no pescoço, enquanto o suor banhava-me o corpo como uma chuva impertinente.
Subi duas montanhas, a primeira das quais me levou 9 horas até chegar ao cume. Passei dias tão sozinho que não me apetecia conversar com ninguém. Senti-me como uma pedra, um fruto, uma folha a esvoaçar num tempo primitivo. Aprendi que sou homem e que tenho direito às minhas dores e às minhas festas do coração.
Cheguei a casa com uma hemorragia na vista esquerda e as pernas escaldadas do deserto do Fraser Canyon. Mas cheguei. Agora perco-me nas páginas do último romance de Michael Ondaatje, bebo sumo de limão e espero que o milagre da tarde não acabe tão depressa.