Regresso

 

Ao contrário das aves, regresso em Setembro. As tardes são altas, iluminadas, e uma tonalidade de oiro atravessa com júbilo os vidros do balcão. Sentado, leio.
Venho de uma longa viagem de bicicleta – 700 quilómetros. Tive momentos de alegria selvagem, raiva, saudade, dores nas pernas e no pescoço, enquanto o suor banhava-me o corpo como uma chuva impertinente.
Subi duas montanhas, a primeira das quais me levou 9 horas até chegar ao cume. Passei dias tão sozinho que não me apetecia conversar com ninguém. Senti-me como uma pedra, um fruto, uma folha a esvoaçar num tempo primitivo. Aprendi que sou homem e que tenho direito às minhas dores e às minhas festas do coração.
Cheguei a casa com uma hemorragia na vista esquerda e as pernas escaldadas do deserto do Fraser Canyon. Mas cheguei. Agora perco-me nas páginas do último romance de Michael Ondaatje, bebo sumo de limão e espero que o milagre da tarde não acabe tão depressa.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Regresso

  1. 700 km? Quantos quilómetros levaram esses setecentos a cumprir um ritual de compromisso entre ti e tu mesmo? Milhares, creio eu.
    Um homem que se obriga a um desafio desta natureza é mais do que pedra, é mais do que asa, é mais do que sonho, é mais do que humano, é mais do que alma, é mais do que Homem. É quase sobrenatural esta estafa!
    Parabéns! A única competição a sério é connosco mesmos e tu conseguiste!
    Agora uns afagos no coração e nessas pernas extenuadas…Mais nada!!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s