Month: Outubro 2011

Orvalho

Reparo: lá fora, através do vidro do quarto, tudo verde.  Saio?
Claro que sim. Há um vermelho intenso aqui perto onde o meu olhar poisou ontem como um pássaro. Buganvílias, estou certo, ardentes, coladas ao ar como se fossem o fogo de as acarinhar a caminho do meu dia, agora tão cheio de orvalho neste espaço ao lado de mim, que é o rumor do mar onde me ausento tantas vezes por o amar tanto.

Ressoo

Leio Júlio Cortázar, o ar condicionado no máximo porque trago ainda na pele  o frio canadiano. A noite da ilha é húmida, longa, como um deserto que, de repente, fere a paisagem de escuridão. A minha mala algures em Londres, em Florença, talvez Madrid. Que sei eu dos trâmites do absurdo? Trago nela um pouco do Outono, uma folha, quero dizer, de uma árvore, o oiro todo da última tarde.

Um poeta anda sempre desarmado: há tanto amor na sua vulnerabilidade, tantas gaivotas perdidas! A lua, o mar e alguns rios reúnem-se dentro de si como uma festa de luz na floresta.

Onde começa a noite? Aqui, neste momento súbito, na música que atravessa os sentidos. Que haja a cor do fogo, um cão, a nostalgia. Que venham, descalços como peregrinos,  os sinais da claridade e me encontrem tranquilo, enrolado ao branco cobertor da madrugada.

Homem no labirinto

Hunter S. Thompson viveu de costas voltadas para a monarquia dos convencionalismos, para os gordinhos do contentamento balofo, para os hipócritas do grande capital. Viveu no extremo do fogo, reinventando-se, perto da água do mar ou nas grandes urbes de uma civilização em declínio. Viveu, é certo, de cigarro ao canto da boca, injectando no seu corpo o vício e a intempérie. Mas viveu, caramba! A ficção, sendo mais intensa e interessante do que a realidade, acabou por confundi-lo. Esse, parece-me, foi o dogma que o matou. Faltou-lhe, no fim, o túnel da hibernação, o estro de tudo quanto alimentou o seu espírito. Foi-se embora aos tiros, matando a imagem no espelho. Uma pena. Quantos chatos ficaram atrás a escrever sobre o umbigo? É melhor não pensar nisso. Falemos apenas de Hunter, o caçador de realidades inventadas. Levanto-me e aplaudo.

Pausa ao fim do dia

Hoje não queria a cidade com as suas luzes e os seus prisioneiros de fato e gravata, ou seja, os modernos escravos das convenções e da futilidade, o tédio e a pestilência dos automóveis, das bichas intermináveis da servidão burocrática. Queria antes a mesa da esplanada, um bolero a crescer em Agosto numa tarde qualquer tropical. Isso, de tão pouco, era tudo: o maravilhoso a cantar junto de mim como se a música fosses tu a correr numa praia ao meu encontro.

Sonata a caminho do verão

Beijo-te para que saibas que estive aí, rente aos eucaliptos dos teus braços. Queria abrigar-me neles como um pássaro perdido do Sul.

Tão longe ainda o tempo – parecia uma pedra no meio do universo. Passavas por ela descalça como uma nuvem sobre o mais belo azul. Nesses rumores, quero dizer, da vida e da circunstância, havia no olhar a cor do mar enquanto a manhã voava alta com as aves brancas da costa.

Beijo-te devagar porque a tua boca é uma palavra dentro de mim. Vejo isso nos teus olhos, onde te espero.

As palavras cantam no mar

A casa branca, os passos leves de um gato sobre o muro, o mar ao fundo.  A secretária de pinho velho onde as palavras correm sob o pulso, e esse vulto que és tu, outra vez, deixando na página as sementes que esvoaçam como papagaios de papel.

Passou o dia e um relâmpago caiu rente aos símbolos da tua vida. A noite sobrevoa os barcos, a funda, inominável noite, enquanto uma guitarra enche-se de vozes e as cigarras cantam entre o estertor de pés descalços.

Cai uma folha das tuas mãos e o muro brilha sob o luar. «És tão mediterrânico nessas palavras, ó filho de África!», ouves dizer dentro de ti.

Sim.

Uma casa é o país de um homem; as suas palavras as aves todas da sua história.

Bebes nos mitos os lábios húmidos de uma mulher, o vinho que sangra de canecas de barro, a cintilante loucura de um corpo sob o chuveiro entre palmeiras altas e esguias, tanto sol a dançar no pátio que entretanto escureceu.

Como fugir do mar, ó bardo!, quando as pedras ardem de silêncio? Como explicas essa orla de lume em cada dedo enquanto buscas  nas palavras o incêndio do desejo na escuridão da terra?

Papéis velhos, África e Chopin

Limpo o meu escritório. Estou perante o desafio de tinta velha em papéis antigos, rasgos de melancolia entre interstícios de pó acavalados por todo o lado. Para quê tudo isto? Quando saí de Angola, levava apenas as sandálias da minha infância (que perdi algures), um álbum de fotografias e as poucas roupas daqueles últimos e olvidáveis dias de Luanda. É certo que a memória delimitava as fronteiras de um país numa alvorada incendiada pela guerra.  Levava comigo, contudo, vinte anos de utopias que eram a idade com que embarquei numa noite triste, muito triste, a caminho da Rhodésia.

Um homem não precisa de muito, quando tem tudo: o amor de uma mulher, um poema entre os dedos e o rosto da claridade a beijá-lo por dentro.

Não preciso destes papéis velhos. Preciso, sim, de um rio, o mais antigo, quando o tempo ainda não existia e as aves cantavam entre o cálido fervor das palmeiras. Sim, nesse tempo o meu pai era um deus de sol e a minha mãe a estrela mais branca da terra. Os meus irmãos, esses, eram quatro braços de água e alegria.

Cresci tanto, meu Deus!, que já não reconheço nos cães vadios o latido de memórias distantes. Sou a vírgula, a última, antes do voltar da página.

Mas, enfim, para aonde vou com isto? Ora.

Pego num papel, e leio:

“Contudo amo-te porque não existes, sombra, néctar de maçã, o mar entre as mãos separando os dias”.

Pois. Rasgo-o e deito-o no lixo.

Aqui fica,  com um pedaço de noite. E o Nocturno op 9. No. 2 em E Flat de Chopin.

Manhã na ilha

Assim – um potro branco, a manhã a crescer, um azul breve por cima.

Estava na ilha e toda a beleza era possível.

Que dizer da silhueta no outro lado da mesa, cativo do seu esplendor, das suas raízes tão firmes no cimento do chão?

Amei em silêncio os labirintos de uma sombra, o trigo dos cabelos desalinhados pelo vento agreste, a altivez dos eucaliptos nos braços cruzados, o olhar que media com assombro as minhas imperfeições. Fui a pedra dos montes e o uivo dos últimos lobos.

Morri um pouco como os animais bravios ante uma tempestade de luz no dorso do horizonte. Mas fui renascendo entre muros de palavras e o sussurro impenetrável da poesia.

Estava na ilha e uma casa crescia entre as ervas e os primeiros passos no corredor do hotel.