Papéis velhos, África e Chopin

Limpo o meu escritório. Estou perante o desafio de tinta velha em papéis antigos, rasgos de melancolia entre interstícios de pó acavalados por todo o lado. Para quê tudo isto? Quando saí de Angola, levava apenas as sandálias da minha infância (que perdi algures), um álbum de fotografias e as poucas roupas daqueles últimos e olvidáveis dias de Luanda. É certo que a memória delimitava as fronteiras de um país numa alvorada incendiada pela guerra.  Levava comigo, contudo, vinte anos de utopias que eram a idade com que embarquei numa noite triste, muito triste, a caminho da Rhodésia.

Um homem não precisa de muito, quando tem tudo: o amor de uma mulher, um poema entre os dedos e o rosto da claridade a beijá-lo por dentro.

Não preciso destes papéis velhos. Preciso, sim, de um rio, o mais antigo, quando o tempo ainda não existia e as aves cantavam entre o cálido fervor das palmeiras. Sim, nesse tempo o meu pai era um deus de sol e a minha mãe a estrela mais branca da terra. Os meus irmãos, esses, eram quatro braços de água e alegria.

Cresci tanto, meu Deus!, que já não reconheço nos cães vadios o latido de memórias distantes. Sou a vírgula, a última, antes do voltar da página.

Mas, enfim, para aonde vou com isto? Ora.

Pego num papel, e leio:

“Contudo amo-te porque não existes, sombra, néctar de maçã, o mar entre as mãos separando os dias”.

Pois. Rasgo-o e deito-o no lixo.

Aqui fica,  com um pedaço de noite. E o Nocturno op 9. No. 2 em E Flat de Chopin.

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5 pensamentos sobre “Papéis velhos, África e Chopin

  1. Eduardo, ler-te a esta hora que a manhã desponta aqui na voz dos galos de Compostela é um verdadeiro renascer, a cada vez que te leio me apaixono pelo mundo que levas dentro, e que sei muito maior do que cabe em todas as palavras… Agradeço ao dia o canto dos galos e a tua poesia… Um abraço, Concha

  2. O Nocturno (agora Noturno, ena que impressão!!!) de Chopin, já de si envolto em melancolia, acompanhando o rasgar de papéis, o abandono de pedaços dum passado que se queria diferente e no entanto se queria mesmo assim com tanto amor partilhado, dá-me, que estou de fora, uma nostalgia … nem sei se breve, nem sei se terrível. Eu quero olhar estas palavras com a memória das coisas eternas e belas, mas há qualquer coisa que me reprime… e nem sei o que é. De longe, bebo as tuas palavras e não mato a sede!
    Um abraço breve, da ilha Graciosa

  3. Tomei a liberdade de partilhar no meu Face ao som do Nocturno por Rubinstein.
    Que as tuas limpezas tenham melhores resultados que as minhas intermináveis quando não adiadas para as calendas. Abraço

  4. Conheci-te, mas não te conheci assim. Conheci-te em tempos que vão longe, e não te imaginava tal, de que as palavras saem dum ventre abençoado que invejo, porque na vida nunca tive tal talento, que me ponha na boca ideias que prevejo, e que de forma sublime dão alento, tanto ao reprimido como ao que reprime, ditas dessa forma que nem monge, consegue ver nelas algum mal, que de forma positiva tocam em mim.
    Eduardo, não sei se este comentário te chegará às “mãos”, mas quando te descobri te procurei, e em forma de poeta te respondo, sem saber como se mexem as palavras, adulterando até regras que não sei, e tornando este poema hediondo, mas que exprimem sentimentos que são sãos.

    Foi uma agradável surpresa. Admiro os poetas, mas vejo neles palavras que nunca soube se são de tristeza, em busca do desconhecido, ou se têm nas palavras o dom de desmistificar os segredos que toda a gente procura descobrir inglòriamente, porque não é na poesia que as respostas estão, digo eu.
    Não entendo nada de poesia, nem das regras que as regem, mas gosto de ler e admirar frases que não lembram senão aos poetas.
    Um abraço do amigo Júlio Pereira

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