As palavras cantam no mar

A casa branca, os passos leves de um gato sobre o muro, o mar ao fundo.  A secretária de pinho velho onde as palavras correm sob o pulso, e esse vulto que és tu, outra vez, deixando na página as sementes que esvoaçam como papagaios de papel.

Passou o dia e um relâmpago caiu rente aos símbolos da tua vida. A noite sobrevoa os barcos, a funda, inominável noite, enquanto uma guitarra enche-se de vozes e as cigarras cantam entre o estertor de pés descalços.

Cai uma folha das tuas mãos e o muro brilha sob o luar. «És tão mediterrânico nessas palavras, ó filho de África!», ouves dizer dentro de ti.

Sim.

Uma casa é o país de um homem; as suas palavras as aves todas da sua história.

Bebes nos mitos os lábios húmidos de uma mulher, o vinho que sangra de canecas de barro, a cintilante loucura de um corpo sob o chuveiro entre palmeiras altas e esguias, tanto sol a dançar no pátio que entretanto escureceu.

Como fugir do mar, ó bardo!, quando as pedras ardem de silêncio? Como explicas essa orla de lume em cada dedo enquanto buscas  nas palavras o incêndio do desejo na escuridão da terra?

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