Month: Novembro 2011

Alebag, outra vez

Tanto pó na minha terra! Tanto vento descalço pelas ruas!
A mulher que ainda ontem viste a correr na tua infância,
cruza-se contigo na imponderável circunstância
do tempo.
As suas roupas envelheceram com o suor; teve filhos
como o abacateiro da estrada do Sul.
As costas, achatadas com a dureza da esteira,
foram o muro onde levou as crianças e a luz árdua
da pobreza.
Agora é uma sombra que passa, curvada e lânguida,
enquanto o dia vai escurecendo a sua pele nocturna
e um rio chora, mansinho, entre os seus pés.

Um caminho para o Sul

Corro e chove nas últimas palavras que voam sobre os meus ombros.
Perdem-se no ar e o único rasto que delas fica esvai-se
entre o cheiro da terra de Novembro, grave e húmida.
Mas fica a semente.
Leva-a contigo.
As palavras são átomos que actuam como os genes:
respiram na esplendorosa noite do coração,
multiplicam-se na primavera do corpo,
e ficam, como estrelas de água, presas às cores do olhar
e do sangue.
Regressam com a memória
e o crepúsculo,
como os brancos e rebeldes
pombos do Sul.

Proximidade

Aproximo-me devagar, sinto-te respirar, a boca tão próxima, a terra, ou toda a minha vida a correr sob o meu corpo, a luz do candeeiro, a luz que vem das veias e me afoga de inquietação, a boca, a tua boca tão perto, um oceano, o rosto a virar-se, a fugir, eu a afogar-me dentro de mim porque um homem também morre na música que foge na boca de uma mulher.

A ponte

Atravesso a ponte que me separa do dia. Fez sol, uma areia de oiro estendeu-se sobre as horas até que a música se dobrou sobre mim como um arbusto ferido.

Beijo agora o escuro, tão nu como a água sobre um corpo no Verão. Que digo? As palavras são o meu trigo e não sei de onde vêm. Bebo nelas aquilo que sou: uma folha de girassol a gravitar no universo.

É noite e nada posso fazer. Um século cresceu dentro de mim, todos os rios do mar. Estou naquele barco ao longe de onde te aceno para que vás ter comigo.

Portugal

Não é uma questão de finanças mas a imposição cega de um sistema económico que usurpa a um povo o direito à dignidade e ao bem-estar. Subitamente, como se não houvesse amanhã, empobrece-o, a cobro de juros elevadíssimos num calendário apertado e numa urgência incompreensível. Quem entretanto enriquecerá com o empobrecimento deste povo? Que ajuda é esta, tão capitosa e fria e cuja dinâmica visa, à primeira vista, apenas depauperar os bolsos de quem trabalha? Cria-se uma economia à base de incentivos e ideias, a começar pelo Ensino. Diminuir salários é uma estratégia ou um roubo?  Depois da queda do muro de Berlim engendrou-se isto, este abismo colossal em que os fortes continuam a demarcar-se das suas responsabilidades e a assumir a posição de protectores de um sistema económico cada vez mais obsoleto e desigual. Assustam-me estes tempos. Assusta-me este servilismo ao capital e a nossa impotência perante os senhores do mundo. Não somos livres, é certo. Só na Arte e no Espírito.

Chamada

A noite fala comigo como um velho amigo. Oiço Pedro Abrunhosa. Está frio deste lado do mundo. Não me sobra um minuto das horas do dia. Chego à noite e é como se empurrasse um barco pela terra adentro: acabaram-se as viagens. Mas a noite, em si, é um prodígio. Acompanha-me com o seu abraço escuro, convida-me a entrar nos segredos do silêncio. Neste momento vejo que me acena da porta. Não resisto e vou-me embora.

Neblina

Os templos eram brancos, altas colunas onde as pombas se recolhiam para receber da tarde o último sol. Penso que era Ovídio, talvez não, quem sabe?, que se ajoelhava perante a água de uns belos olhos e cantava enlouquecido pelo fulgor de tanta beleza, os braços levantados aos céus. Foi há muitos anos mas podia ter sido hoje. Entretanto as cidades cresceram e os poetas ficaram sem um lugar para exercitarem a paixão. Começaram a morrer devagar como as ébrias legendas dos montes. Eu sou desse tempo. Sobrevivo entre as pedras de alguns versos. Mas hoje, quando a neblina me cerca com os seus muros intransponíveis, queria levar-te o mar nas mãos. Queria que cantasse nos teus cabelos enquanto eu atravessasse a assobiar o campo de tulipas húmidas dos teus olhos.

Novembro

Novembro está cheio de folhas espalhadas pelo chão. As mais apaixonadas são da cor do oiro; as amarelas caíram de melancolia. Tento não pisá-las. Evito deixar sobre elas o peso do meu corpo, dos meus pensamentos, a cor das palavras que levo no coração. Há dias em que o Outono sou eu sentado num banco, observando as pombas sobre a relva, o cristal do orvalho a multiplicar-se como um milagre. Mas hoje, neste dia em que o sol caminha ao meu lado como um cão, observo Novembro entre as árvores, deitado sob elas como se fosse um tapete pintado por Matisse. Só o amor é tão belo como isto. E dói sempre.