Estações da idade

Ando descalço sobre o nome da cidade.
Atravesso a rua.  Uma sombra caminha ao meu encontro.
Toca-me e desfaz-se como um grito.

Vim de África há muitos anos e nunca regressei
à idade da minha partida.

Agora estou num parque, no fim de Novembro,
e o Inverno aproxima-se.

Sou um homem com a memória de um menino.
Às vezes chove na janela sem fim
dos anos que correram adiante de mim.

Mas estou aqui, no parque que escurece,
com o meu violino. As folhas dançam,
geladas; o silêncio tem a cor da neve.

Os sinais da minha respiração crescem entre as árvores
adormecidas.
Mesmo fria a luz canta,  húmida.
Como um cão, beija-me as mãos.

Vou-me embora lentamente. Levo comigo
o teu nome, na minha boca e no meu peito.
Volto-me: os meus pés deixam na terra
o itinerário das aves.

Amo, murmuro aos ramos quebrados
deste dia enquanto o meu coração
te pede a viagem
de regresso ao poema.

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