Mês: Fevereiro 2012

Melancolia

Como se morre diante de uma palavra?
Tantas que passaram pelos meus dedos – cardumes, nuvens, revoada de pombos, areia. Às vezes foram os calções e as sandálias da minha infância.
Eu sei: trago-te hoje tão pouco!
Mas é impenetrável a neblina dos montes no coração de um homem.
O poema nem sempre é o deserto que fulgura diante dos olhos, a tarde de oiro que se levanta em Setembro sobre o cântico da tribo.
Às vezes é esta palavra frágil e cansada entre outras palavras
e que cega voa em direcção às dunas onde a noite se cala,
de tão triste, no fim desta viagem
pelo dia.

Madrigal rente à Primavera

Começo a ouvir o teu nome com o cantar das aves.
Chove na música das primeiras sílabas
e uma abelha voa entre o rumor dos teus cabelos.
Vens de muito longe, do momento em que uma pétala
se abriu sobre o esplendor do mundo.
Tão pura a água que corre entre o silêncio
e o deserto onde a manhã se enche de gritos!
Começo a ouvir-te como se numa terra de chamas
os meus passos fossem as ervas que um dia pisaste
enquanto dançavas de braços abertos
à minha solidão, infinita e glacial.