Mês: Outubro 2012

Chuva

Chove na tarde que escurece. A luz morre devagar entre a fosforescência do orvalho. A rua, deserta.

Rocky, o meu cão, dorme à entrada da minha porta. De vez em quando oiço-o, quando se mexe. A luz do candeeiro atira contra mim uma madrugada surreal. Devagar, como se cantasse rente ao chão, sinto dentro de mim a viagem do inverno. A força de uma raiz? Não sei o que é. Não estou triste nem melancólico. Penso, em sintonia com o vento. E assim viajo na última, cansada luz do dia.

Texto de Anabela Mimoso aquando da apresentação de “A cor do Sul nos teus olhos”

A Cor do sul nos teus olhos – Apresentação Biblioteca Municipal de Gaia

por Anabela Mimoso

Dados biográficos do autor

Eduardo Bettencourt Pinto é autor de uma extensa obra de que destacaremos na Poesia: Emoção – 1978; Razões – 1979; Mão Tardia -1981; A Deusa da Chuva -1991; Menina da Água – 1997; Tango nos Pátio; do Sul – 2001; Um dia qualquer em Junho, Lisboa: Inst. Camões, 2000; Travelling with shadows/Viajar com sombras, Surrey, B.C., Canadá (edição bilingue), 2008; Poemas de África Lonxe (Edição galega; 2010); na Ficção: As brancas passagens do silêncio – 1988; Sombra duma rosa -1998; O príncipe dos regressos -1999; A casa das rugas – 2004. Está ainda representado em várias antologias em Portugal, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Angola e Letónia. No entanto, mesmo na ficção não deixa de ser o poeta a escrever.

«Eu nasci em Angola, no Sul, numa pequena cidade (Gabela). Eu amava a sua melancolia, o cheiro do café em flor, a suavidade da neblina quando anoitecia, o cantar dos galos. A minha pele tinha o cheiro daquele lugar – das suas casas de adobe, da voz do meu pai rente ao vento. Dos intermináveis cafeeiros de chuva».
É assim que Eduardo Bettencourt Pinto se refere à terra onde nasceu. Teria, porém, de a deixar em 1975, na sequência da guerra. Mas isso não significa, obviamente, que tenha cortado a ligação umbilical a África:

«Gabela é, será sempre, a minha terra e Angola a árvore perante a qual me ajoelho e choro. Não rejeito as minhas cinzas. Nem mesmo nos momentos mais bizarros».
Outras terras se lhe seguiram. Procurou, primeiro, refazer a sua vida ainda em África, em vários países, entre os quais o Zimbabwé, tendo finalmente vindo para S. Miguel, terra da mãe:
«Venho também dos Açores, de uma rua onde a casa de minha avó desafia o Tempo. Cresci um pouco entre aquelas paredes, ouvindo o mar […] Um lugar onde as lágrimas caíam no último olhar, onde o Inverno adormecia de mansinho no chão de musgo».

EBP viveu então em S. Miguel, Ponta Delgada, em dois momentos. Primeiro, na infância, entre 1958 e 1961, de que guardará gratas recordações: «Lembro-me sobretudo do marcante período que eu e os meus irmãos passámos lá, na infância. Como esquecer as ruas húmidas, o cheiro das casas?» ou «O meu Natal, estou certo, é sempre o de 1958 em S. Miguel» No segundo momento, no regresso de África, ou seja, desde 1976 e até 1983, altura em que partiu para o Canadá.

Balançando entre a nostalgia e a mágoa da perda de referência da terra natal, foram os Açores que se tornaram a referência portuguesa, a terra do seu regresso: «Estar nos Açores é atravessar um poema o dia inteiro com o mar colado aos olhos» ou: «Estava na ilha e toda a beleza era possível» ou ainda «Ponta Delgada é uma cidade que me comove. Sempre que lá vou, levito no passado».

A cor do sul nos teus olhos
Contextualização

Como obra aberta que é, o texto literário possibilita múltiplas interpretações. Na impossibilidade de abarcar todos os seus sentidos, interessa-nos utilizar um modelo teórico que possibilite atribuir um sentido, ou sentidos, possível(-veis), válido(s) ao mais recente livro do autor A cor do sul nos teu olhos.

Pelas características dos textos em análise – a poesia lírica – julgamos mais interessante focar a sua estrutura profunda, o genotexto, ou seja, os códigos simbólicos, os fatores e impulsos, que pertencem ao domínio do inconsciente e do determinismo histórico-sociológico, já que, pré-existindo à elaboração do discurso literário, afetam o código retórico-estilístico, e permitem-nos perceber a distribuição e escolha dos lexemas, das metáforas, das comparações, das imagens, das repetições, no texto poético.

Recordemos, como V.A e Silva, que «o texto literário não é uma espécie ou subdivisão do texto linguístico, susceptível de ser descrita na sua integralidade – e, por conseguinte, na sua especificidade – por uma gramática textual apta a explicar o funcionamento dum texto pertencente à “língua normal”» (1979: 24). Daí que o código linguístico seja manifestamente redutor para a compreensão do texto poético.

Assim, perceber a articulação e a interação deste código ideológico com o código retórico-estilístico apresenta-se como fundamental para o entendimento do texto poético, nomeadamente do lírico. No caso concreto do livro em análise, tentaremos mostrar como se patenteia aí a insularidade e a ausência. Teremos apenas em conta, dada a exiguidade do espaço, o binómio feminino/masculino bem evidência em A cor do sul nos teus olhos, que se manifesta na presença de símbolos recorrentes como ilha, terra, cais/mar, rios, chuva, barcos. Estes símbolos mostram bem a singularidade da visão do mundo do autor e são uma marca da originalidade da sua poesia.
A Poética do Imaginário, que se desenvolveu partir dos anos 80, graças aos conhecimentos proporcionados pela psicologia e quando o medo do biografismo foi superado, veio abrir-nos caminho para este tipo de interpretações. Tem-se em conta o autor, sim, mas para se analisar como se refletem na sua obra os conflitos, pessoais ou coletivos, como funciona a imaginação, que aspetos do subconsciente nela se fazem sentir, ou seja, procurando na obra a voz do autor e do contexto intelectual e social em que ele se insere. Foi a partir dos trabalhos de Jung, que a poética do imaginário se desenvolveu, graças, sobretudo aos trabalhos de G. Bachelard. O símbolo deixa de ser «segundo a escola freudiana, o objecto de um recalcamento, mas sim, de acordo com o pensamento de Jung, o sentido de uma procura e a resposta de uma intuição incontrolável», como diria Chevalier (1994: 21). A metáfora, o símbolo, a imagem são entendidos como projeções metamorfoseadas do inconsciente que, deste modo, emerge à superfície do texto. A verdade é que o «símbolo exprime o mundo percebido e vivido tal como o sujeito o sente e não segundo a sua razão crítica e ao nível da sua consciência, mas sim do seu psiquismo, afetivo e representativo, principalmente ao nível do inconsciente», esclarece Chevalier (1994: 21).
Ora, a geografia, «a serpenteante geografia da existência» (Sentir), só importa nas nossas vidas quando estamos de mal com ela. Quando queremos estar num lugar e ele foge de nós. É desta maneira que ela se torna determinante na vida e, logo, na escrita de Eduardo Bettencourt Pinto, sempre «perdido em geografias estrangeiras» (Não sei dizer que te amo quando estou triste).

Obviamente que a sua criatividade que, de resto, ele carateriza na epígrafe pedida emprestada a Rui Knopfli «Porque eu teimo,/ recuso e não alinho. Sou só./Não parcialmente, mas rigorosamente.», a sua criatividade, dizíamos, não se esgota nesta temática, antes tem um lugar muito determinante no seu imaginário. Por isso a abordaremos aqui. Ela implica ainda, de uma maneira evidente, a escolha dos tropos, a “substantivação” da sua poesia.

A ilha

«As criações, por mais originais que sejam, retiram os elementos que as compõem das experiências perceptivas do sujeito», diria Philippe Malrieu (1996: 7). Ora, o sujeito quando se refugia, em busca de segurança, proteção, apaziguamento, procura sempre na memória os lugares da sua preferência, os que lhe foram benéficos. Não é, pois, de estranhar que haja em EBP especificidades no modo de (re)ver a ilha, decorrentes da sua história de vida.
A ausência da ilha é também dominada pelo Tempo, maiusculizado pelo autor. Não apenas a expressão da passagem inexorável de Cronos, mas também o tempo cíclico, agrário que, para o autor, é sobretudo o tempo do regresso (e logo da partida) – é setembro – «Quero setembro na ilha da minha mãe», declara em Intermitência. Setembro, outono, metáfora também da idade da vida.
Ora, simbolicamente, a ilha é um elemento feminino por excelência, logo, frequentemente associado ao corpo da mulher. Como espaço circular que é, ela fecha-se ao exterior, tornando-se assim o espaço da interioridade, por isso, o refúgio, o centro primordial, o lugar sagrado, o ventre materno. Como espaço limitado, finito que, obviamente, também é, assume-se como um lugar pacífico face ao caos. Mas, como é ainda o lugar perfeito, ela representa a harmonização entre o princípio e o fim, logo, o lugar do retorno. Por isso mesmo, «as ilhas tornaram-se um dos mitos fundamentais, entre as lendas da idade de ouro» (Dic.;1994: 375).
A ilha, espaço real, é revisitada amiúde nas páginas da sua obra. Não é ela a «companheira de todas as águas» (Ilha)? Mas é também assumida como uma metáfora recorrente («no inverno sento-me numa ilha», lê-se em Procura-me ou «Levas contigo a ilha», em Divagações), o que podemos entender, já que é espaço circular, como expressão da marca do intimismo da sua poesia. De facto, é a metáfora perfeita, é o símbolo perfeito. Perfeito, porque é o reflexo do processo de construção da sua identidade que exigia, nas partidas repetidas, na ausência, a demanda, dentro de si, de um mundo redondo, fechado e, por isso, seguro como um ventre materno – é a «ilha da mãe», diz -, e com o qual pudesse estabelecer um diálogo apaziguador, tornando-se assim o passado de referência. Passado não raras vezes mitificado, porque a ilha é também construída. Construída pela imaginação poética, pela associação à figura feminina, pela memória, («ilha da memória», assumirá em Fim do dia). Na ausência, ela é essa outra ilha, mais viva sim, porque os olhos da memória veem sempre melhor do que os nossos olhos. Por isso, dói mais o afastamento.

A ilha, onde «toda a beleza era possível» (Manhã na ilha), porque feminina, não é só a mãe, não é só Maria, a casa da infância, o país. Ela é também Eva, tornando, mesmo difícil perceber quando esse corpo feminino é o de ilha ou o de mulher: «Deixaste-me partir descalço/ sobre as minhas feridas./ Onde estás, companheira de todas as águas?/ A noite é uma janela aberta sobre o mar./ Os vasos das gardénias mais sombrias quebram-se/ de encontro ao silêncio. (…)/ Já não vejo o teu rosto/ nos pingos de chuva que cobrem o para-brisas./ (…) Tens, sei, a natureza das florestas no outono,/e são bravos os teus cabelos como os pinheiros da costa./ Escondo-me agora na minha cama de pedra,/ nos meus sonhos de vidro, nos lençóis de luar com que cubro/ agora os momentos mais fundos sem ti». Dúbio, não obstante o poema chamar-se Ilha.

Por isso, a ausência da ilha, é também a ausência da amada: «Levas a ilha contigo, estes dias todos, belos e tão breves, o mar ao/ fundo, a tua face beijada pelo vento» (Divagações). E dói. A brevidade do encontro, a ausência prolongada.

A psicanálise explica ainda que «A lha é um refúgio onde a consciência e a vontade se unem para fugirem aos assaltos do inconsciente: contra as vagas do Oceano procura-se o socorro da rocha» (1994: 374). Segundo Jung, na sua função de refúgio contra o mar, ela torna-se o símbolo de estabilidade. Logo, um local seguro, mesmo quando ausente, porque ela está lá, estará sempre lá para acolher o poeta nos seus naufrágios ou apenas nas suas viagens.

Não admira, pois, que ela seja o cais, oferecendo a segurança dos seus braços sempre abertos: «Um dia todos nós partimos./ Mas eu regresso sempre a este cais» (Casi Cielo). De facto, viajante continuado, sempre em trânsito, sujeito às vicissitudes do mar intranquilo, é o porto que procura, porque, afinal «o nosso destino é a terra» (Sentir).

Daí a sua articulação constante com o mar. Como contraponto, como a outra face do binómio homem/mulher. É que sendo a ilha feminina, apesar disso, ou por isso mesmo, ela é forjada na rocha vulcânica, sólida e resistente à inconstância e à fluidez do mar que a cerca. Ela fica, ele flui, parte, mas num movimento de eterno retorno.

O mar

O mar, omnipresente na ilha, pelo abraço constante que ele lhe dá, é, para a maioria dos açorianos, demasiado estreito, asfixiante, não para EBP, para quem esse abraço é visceral, logo, irresistível, porém doce e apaixonado.
Mas essa atração estende-se também a essa outra caraterística, essa sim, comum a outros autores, que é a vocação que o mar tem de ser a estrada, o caminho de ligação/separação com o resto do mundo. Para os que sonham com as Américas a haver.

De facto, ao contrário da ilha, estável, passiva, expectante, o mar movimenta-se, passa. Livre para fluir, porém, não se separa da praia que o espera: «O que sobra da noite quando adormecemos dentro de nós?/A praia longe, o mar que nos cai dos dedos, a impregnação da pedra/ enquanto o sol deflagra sobre a nossa pele como uma onda de lume?» (Génesis).

Logo, nesse seu fluir no tempo, o mar é o símbolo dinâmico da vida. Tudo sai do mar e a ele regressa. Por isso, é o lugar de nascimento, transformações e renascimentos.

Como tal, ele está omnipresente na obra poética do autor, mesmo quando fisicamente ausente do seu horizonte visual, quando é «o mar, esse que não tenho, tropical e morno», lê-se em Meditação de sábado.
Como elemento masculino que é, torna-se a própria essência do poeta: «Escondo-me num poema impossível/ à procura do mar» (Perigrinatio). Esta busca é também a busca de si próprio, da sua identidade. Por isso, a sua presença é uma urgência, uma necessidade: «Onde está o mar?», pergunta ansioso o sujeito poético em Não sei dizer que te amo quando estou triste.

Mas, como elemento masculino, necessariamente que tem de buscar incessantemente o seu contraponto feminino, pois só nele se realiza. E esse contraponto é a terra, a casa, o corpo feminino (da ilha, da mulher amada?): «Imagino o mar./ Assim escuto o rumor/ do teu corpo/ entre as casas brancas do litoral» (O rumor das tuas margens). É a voz do mar ansiando pela terra: «O mar chama-te deste lado/ onde me deito.», lê-se também em Pertença.

No seu movimento de busca da companheira, mar e amor realizam a ligação inevitável: «O amor é uma viagem sem bússola./ Perde-te comigo no horizonte desse mar.» (Outros rios). Na verdade, a companheira, ilha, barca, porto, vela pela segurança da navegação. Por isso, «Só no amor podemos caminhar sobre o mar.», constata-se em Pois. Porque o mar está inextricavelmente ligado à condição de poeta e de homem: «Como fugir do mar, ó bardo!», pergunta-se no mesmo poema.

Então não admira que a presença do mar convoque o amor. Diz o poeta: «Penso num beijo perto do mar porque escrevo. Penso e sinto os rios de/ ser homem. Todos os estranhos do mundo bebem café ao meu redor/ até se afastarem devagar na chuva tropical das minhas palavras» (Café).

Este texto poético, particularmente rico do ponto de vista simbólico, manifesta ainda a presença lógica de mais dois elementos relacionados com o mar: os rios (sua continuação e seu símile no seu fluir constante) e a chuva (como projeção vertical, fechando o ciclo da água). Elementos masculinos, claro.

A estes símbolos masculinos junta-se um outro, lógico, inevitável – o barco: «Fica o silêncio, macio, profundo, a dançar sobre a corrente fluvial do/ Pitt River, uma nuvem branca ao fundo. De vez em quando, ao longe,/ passa um barco./ Este silêncio é um rio dentro de mim, um sussurro, o reflexo de um/ olhar sobrenatural. Comove-me. Quase choro sentindo a melancolia de/ Deus passar com a brisa» (Silêncio).

A memória/saudade
Na viagem incessante que é vida do poeta, ou é a vida, sendo o mar a estrada e a ilha a meta, a saudade é sempre a recordação/memória do objeto amado, ilha ou mulher (Eva ou Maria), de um tempo passado (infância ou juventude), derramada num espaço adverso, num tempo a escoar-se, e dói na sensação de não pertença a esse espaço/tempo que é o do país do trabalho: «Não sou daqui, parti há muitos anos. Vivo um tempo emprestado», lê-se em Homem a fugir do poema. Dói quando, no inverno, não se pode estar junto ao corpo/ilha amado: «é mais um dia em que o mundo/ é grande,/ em que a saudade é imensa/e o inverno longo» (Mulher com mar ao fundo).

Sem revolta, nem mágoa. Como quem faz contas à vida: «O que é isto se não a memória/ a correr como uma criança» (Depois de ti) ou «Estou num parque, no fim de novembro. O inverno aproxima-se./Sou um homem com a memória de um menino.» (Estações brancas). O menino que espreita por entre os poemas.

Conclusão

Bachelard localiza na infância a origem do devaneio, não na infância traumática, mas na infância maravilhosa. É precisamente essa capacidade de deslumbramento, de ver a beleza das coisas com os olhos lavados, que perpassa nos poemas de Eduardo Bettencourt Pinto, porque nele haverá sempre «uma criança a correr.» (Meditação de sábado). De ver e de no-lo saber dizer, substantivando-se rente à simplicidade, seduzindo a elegância e a beleza formal.