Mês: Novembro 2012

Borges

Quando leio Borges, descubro uma Biblioteca em cada página. Às vezes arrasta-se entre neblina. Passa incógnito, o cachecol a esvoaçar sobre os ombros até se aproximar, cauteloso, da última vibração diurna. Detém-se, quantas vezes, rente às sombras para observar um pássaro a circular uma floresta de palavras. De cada vez que o leio sinto-o regressar a casa, vindo do trabalho, os passos miúdos a desenharem no chão o rasto e a respiração do tigre. Quem sabe, poderá interessar-se pela luz em descanso numa chávena de um café de Buenos Aires, ou admirar, extasiado, um par enlaçado pelo lume de um tango ou de um bolero. Nunca sei em que mundo os seus passos se perdem. A verdade, porém, é que um homem assim nunca morre. Vive para além de si mesmo. Por isso tenho Borges a pendurar o seu casaco nos meus dedos enquanto o leio.

Os meus Açores

Em 2012, já não entro em Ponta Delgada como antigamente: pela Avenida de Mónaco abaixo sob uma dança de nuvens, até desembocar emocionado na Rua de Lisboa. Logo a seguir, e voltando à esquerda na Rua da Vila Nova, subir devagar, como quem bebe o passado, até à casa da minha mãe. Agora quando saio do aeroporto, estou numa autoestrada europeia. No entanto, mesmo que perdidas algumas referências, reconheço que estou na ilha e rente aos braços do mar. Não sou objetivo, eu sei. Sou emocional. O amor, um grande amor, tem destas coisas. A verdade, porém, é que os Açores não são apenas as inúmeras vozes dos meus parentes e dos meus mortos. São também esta aliança de luz e sombra, esta catarse, estas lágrimas de pedra que acaricio com o olhar na viagem apaixonada pela cidade, passo a passo, redescobrindo em mim as mais inextricáveis raízes.