Borges

Quando leio Borges, descubro uma Biblioteca em cada página. Às vezes arrasta-se entre neblina. Passa incógnito, o cachecol a esvoaçar sobre os ombros até se aproximar, cauteloso, da última vibração diurna. Detém-se, quantas vezes, rente às sombras para observar um pássaro a circular uma floresta de palavras. De cada vez que o leio sinto-o regressar a casa, vindo do trabalho, os passos miúdos a desenharem no chão o rasto e a respiração do tigre. Quem sabe, poderá interessar-se pela luz em descanso numa chávena de um café de Buenos Aires, ou admirar, extasiado, um par enlaçado pelo lume de um tango ou de um bolero. Nunca sei em que mundo os seus passos se perdem. A verdade, porém, é que um homem assim nunca morre. Vive para além de si mesmo. Por isso tenho Borges a pendurar o seu casaco nos meus dedos enquanto o leio.

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