Mês: Maio 2013

Até um dia

Fernando Aires e Daniel de SáDaniel:

Quando te via, trazias na roupa e na voz o vento da Maia, e nos olhos alguns pingos de chuva. Eras a ilha que chegava, verde dos montes e azul dos limpos e altos céus do Verão.

A última vez que nos encontrámos deixaste nas minhas mãos um livro de poesia, como quem reparte um pouco de pão. Vinha num envelope branco e recomendaste que o abrisse quando tivesse tempo. Disseste isso com a modéstia de um verdadeiro senhor, educado e humilde, seguro na amizade e sem os intragáveis tiques dessas figuras de cordel que coçam o umbigo do ego na caça triste e cega de notoriedade.

Em Santa Maria, dançaste no átrio do hotel, foste social e aberto como um amigo entre amigos e com as tuas palavras de escritor guardadas nos bolsos como sementes. Vi-te feliz, solto, de sorriso franco. Vi-te, no teu olhar, sem as roupas de adulto mas de calções e sandálias e de regresso aos primeiros dias de Santa Maria. Um olhar branco, digo, e que voou como uma gaivota sobre as ruínas da casa da tua infância.

Anos antes, em 2009, surpreendeste-nos nas Furnas à conversa com o Fernando Aires enquanto no ar crescia, saboroso e convidativo, o cheiro do melhor cozido à portuguesa do mundo. Tirei-vos a fotografia, juntos, o branco da parede do restaurante por trás.

Aceito que te vás embora porque acredito como tu acreditaste que há outra ilha para além desta que habitamos, tão rente ao chão. Neste momento, quem sabe, estarás com o Fernando Aires, atento aos pequenos e mais significantes detalhes do diálogo. Mas, acredita, estou triste e lamento muito a tua ausência como, aliás, a do Fernando, e de tantos outros que levaram consigo um pouco do meu mundo.

Obrigado, Daniel, pelo jardim magnífico que me deixaste na memória de ti.