Mês: Junho 2013

Regresso ao princípio

Ao mano Zé Costa

 

Deitei-me sob uma magnólia e acordei noutra idade.

Um pardal cantava dentro de uma gota de orvalho.

Na relva, o húmido e cintilante rumor da manhã. Pensei: isto só pode ser a infância.

As minhas mãos eram ainda as de minha mãe acariciando as minhas. Os seus dedos,

leves, macios e belos como um tecido de água. Nos seus cabelos revoltos fui descobrindo

a geografia e o mar dos Açores.

Só quando a luz os tocou é que os meus olhos correram entre o trigo

todo

da música.

Regresso ao Sul

capa-a-cor-do-sul-nos-teus-olhosÀ esquerda, ou no espelho da tua memória, /passo ainda. Olha.

Eduardo Bettencourt Pinto, A Cor do Sul nos teus olhos

 

/Vamberto Freitas

 

Rememoração: Eduardo Bettencourt Pinto nasceu e viveu em Angola até 1975, o ano da nossa libertação e desgraça nacional, a dialéctica da vida colectiva a cumprir-se. Filho de pai continental e mãe açoriana, também havia de cumprir o seu e nosso destino: navegar uma vez mais em busca do pão e da decência. Depois de atravessar outras fronteiras africanas, viria para a sua terra ancestral (São Miguel), onde durante alguns anos trabalhou e escreveu, até que em 1983 partiria com a nova família constituída para Vancouver, no oeste pacífico do Canadá, permanecendo lá até hoje. Tem produzido uma obra literária admirável que se espalha pelos vários géneros, desde o conto e romance à poesia e prosa poética, dando continuidade ainda ao que ele também já havia realizado nos Açores, quando com Emanuel Jorge Botelho coordenou e dirigiu a revista Aresta, de pouca duração mas de longa memória. Na diáspora, nunca se confinou a uma redoma de escrita própria, sempre estendeu a mão aos seus colegas em toda a parte fundando uma pequena editora (Seixo Publishers, cuja chancela vem ainda estampada no presente volume de prosa poética), e durante algum tempo dirigiu com o brilho de sempre uma outra revista virtual virada naturalmente para a escrita saída das suas geografias em tudo significantes, o que quer dizer a boa literatura em qualquer língua ou de qualquer outra sociedade – Seixo Review, do qual saíram dez extensos números. Acrescente-se aqui que, para Eduardo Bettencourt Pinto, existe algo de muito mais vasto do que a “literatura portuguesa” – ele é hoje, como sempre foi, um atento leitor das novas gerações de escritores oriundos ou residentes nos países africanos lusófonos, e ainda com o Brasil sempre no centro dos seus/nossos afectos literários e culturais. Por minha parte, sempre o considerei um “escritor açoriano” – já estou a ouvir as carpideiras de serviço, mas também já estou muito habituado aos seus ruídos – dada a obsessão criativa com que tem construído a maior parte da sua obra, as suas imagens e memórias, as suas saudades versificadas, o seu posicionamento na sua própria biografia e nos seus laços de pertença. Esta minha visão do autor de Emersos Vestígios (1985), Menina de Água (1997) ou ainda de O Príncipe dos Regressos (1999), em nada limita a extensão de todos os seus afectos e referenciais geográficos e humanos. Muito pelo contrário, a expressão “escritor açoriano” traz necessariamente consigo a semântica do andarilho – “Além da literatura, a fotografia é outra das suas paixões. E as viagens” — do escritor no labirinto de uma globalização literária autêntica, e não só a dos teóricos que nem a freguesia ou a aldeia ao lado conhecem muito bem. Um dos seus livros de poesia atesta isso mesmo – Travelling Shadows. Raro é o evento literário no nosso arquipélago ou na diáspora – participa de quando em quando em encontros internacionais de vária ordem linguística e cultural — em que ele não esteja presente.

A cor do Sul nos teus olhos acaba de ser publicado, e creio estarmos ante um dos melhores livros de Eduardo Bettencourt Pinto, pelo menos dentro do género a que nos habituamos a chamar de “prosa-poética”, algo entre o poema de verso livre e prosa cuja única regra formal será a sua musicalidade rítmica, o seu andamento entre tempos, lugares e pessoas — e só depois os significados que o leitor retira de cada palavra, de cada frase, de cada “poema”. Quase parece um livro testamentário no qual o autor derrama todo o seu passado e presente condição de vida, uma síntese emotiva de toda a sua obra. Aliás, A Cor do Sul nos teus olhos como que dá seguimento por outros modos a livros anteriores e marcantes, como Tango nos pátios do sul (poesia, 1999) e a ficção de A casa das rugas (2004). Tenho insistido noutros escritos que abordam a minha geração de escritores açorianos que o tema do regresso é agora quase transversal a todos eles, a mais evidente convergência das suas obras publicadas nestes últimos anos. Numa cultura feita desde sempre de partidas e chegadas, de embarques e de exílios vários, nem o sucesso das suas vivências nas díspares geografias do mundo nem os falhanços ou desilusões do e no seu percurso evita a vontade de, pelo menos, revisitar ou lembrar as origens, a força das raízes que não nos aprisionam mas observam-nos e chamam-nos a si com a insistência de um deus benévolo ou cruel. Não foi nunca a chegada às terras prometidas o sentido primeiro das suas aventuras, foram as incertezas desafiadoras dos caminhos para lá chegar, a aprendizagem de estar com o outro, mas sobretudo de o observar, ele próprio, nos seus redutos e depois constatar que o universalismo é isso mesmo: a humanidade irrequieta sempre à procura do lado lá de sua casa, ou da sorte. Parte da beleza destes poemas e prosa de E. Bettencourt Pinto é a serenidade da linguagem, a sensualidade manifesta em cada uma das suas companhias – ou companhia desdobrada e reinventada com o decorrer do tempo e sabedoria adquirida lado a lado. Este é também um outro livro de viagens, reais mas sobretudo interiores, o escritor decididamente virado para dentro, para si próprio, numa tentativa de entender uma longa vida de caminhadas em dois hemisférios em tudo opostos, o frio de um norte supostamente rico a clamar pelo calor humano do sul luzidio e fértil noutras géneses de se estar e ser no mundo. África, Brasil, Europa – e depois, inevitavelmente a ilha açoriana, ou simplesmente a ilha imaginária em cada um de nós, o conforto da distância de toda a História que nos amedronta, a terra-mãe sempre próxima para nos apaziguar nas angústias de navegadores perpétuos, a ideia de permanência mais fantasia do que possibilidade (“Deixaste-me partir descalço/sobre as minhas feridas./Onde estás, companheira de todas as águas?/A noite é uma janela aberta sobre o mar”). São poucos os escritores que têm esta capacidade de misturar um confessionalismo pessoal, íntimo em todos os seus sentidos, com uma narratividade do mundo exterior à sua volta, o regresso radical ao seu país profundo, mas sempre com a mão estendida ao outro a seu lado. É o contraponto mais inteligente ao poeta ou intelectual fechado num quarto vazio, estuporando e “condenado” o mundo todo em volta, é o contrário de um certo “existencialismo” de todo fabricado de quem se pensa um ser humano à parte de tudo e de todos. Em suma, é o contrário dos supostos “génios” que entre nós dominam desde há algum tempo a “literatura” do nada – e de ninguém. De “Um lenço branco”, transcrito aqui sem a quebra de linhas:

“Beijo agora o escuro, tão nu como a água sobre um corpo no verão. Que digo? As palavras são o meu trigo e não sei de onde vêm. Bebo nelas aquilo que sou: uma folha de girassol a gravitar no universo. É noite e nada posso fazer. Um século cresceu dentro de mim, todos os rios do mar. Estou naquele barco ao longe de onde te aceno para que vás ao meu encontro”.

Distância e proximidade, sempre, dos que o completam como ser humano à deriva, por assim dizer, em mundos sempre novos, a descoberta perpétua de quem vive vivo, mas sem nunca encontrar o lugar mítico da felicidade. Regresso, desamparo e saudade do que nunca foi, para além do sonho. É uma temática que aparece com especial força na escrita desta geração autenticamente cosmopolita, e que teve outras páginas tão poderosas e indeléveis, pelo menos para nós, desde O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo. Se há uma literatura de língua portuguesa que nos fala directa e comovidamente, é esta que tem saído dos Açores durante as últimas décadas, ou então a que às ilhas regressa vinda das mais longínquas geografias, Ulisses cansado de guerra e de terras estranhas. Só os verdadeiros universalistas entendem o paradoxo de se ser “Estrangeiro aqui como em toda a parte”.

Por fim, quero ainda relembrar a todos que foi ele que, a partir do Canadá, seleccionou e organizou uma grande colectânea, intitulada Nove rumores do mar: antologia de poesia açoriana contemporânea (publicada pelo Instituto Camões em 2000, indo já na 3ª edição). Nem todos a leste das ilhas têm estado desatentos. A sua atenção poderá ser sempre meio tardia, mas eventualmente é inevitável. A cor do Sul nos teus olhos merece novamente uma leitura bem mais alargada do que costuma acontecer aos nossos melhores autores. Como muitos outros escritores e poetas de cá, encontra-se amplamente divulgado em publicações estrangeiras de diversa natureza.


Eduardo Bettencourt Pinto, A cor do Sul nos teus olhos, Pitt Meadows, Canada, 2012.

Artes&Letras

suplemento Artes&Letras

Surgiu recentemente o suplemento literário Artes&Letras, do semanário açoriano Terra Nostra, publicado na ilha de S. Miguel. Tem como coordenadores o ensaísta Vamberto Freitas e o poeta e escritor Álamo de Oliveira.

Com fortes tradições nos Açores, os suplementos literários têm sido, através dos tempos, um veículo de mais-valia no âmbito da divulgação do que melhor se faz nas ilhas em termos de Literatura e Artes em geral. Ambos os coordenadores contam com vasta experiência nessa área, tendo dado já vastas provas de competência e pragmatismo literário em projectos cujas publicações se mantiveram por vários anos, como são os casos, respectivamente, do SAAL de Vamberto Freitas (Ponta Delgada), e de O Vento Norte (Angra do Heroísmo), de Álamo de Oliveira.

No mundo de hoje, porém, com tudo de bom e de mau que a Internet nos dá, uma região, qualquer região, não se deve manter fechada ao mundo. Seria cair numa visão de túnel, retrógrada, e, no mínimo, insensível ao que se passa à sua volta. Artes&Letras não se circunscreve apenas às suas fronteiras marinhas. Apresenta-se ao público numa configuração de permuta saudável, e em cujo espírito de intercâmbio assentam a virtude cultural e o dinamismo criativo de vozes e expressões artísticas próximas ou geograficamente distantes.

Saúdo, pois, esta nova iniciativa, por tudo o que nos revela de bom gosto estético e pela evidente qualidade dos seus conteúdos. Bem hajam os coordenadores e a direcção do Terra Nostra por este acolhimento excepcional.

 

Um velho amigo

Entregue a um compromisso fotográfico com a edilidade local, dei com o Gerry no meio da rua. Estava de tripé a postes e a máquina, a sua venerável e lendária Nikon, apontada na direção da parada, que se aproximava.

O Gerry é um anglo-saxónico grande, volumoso, em cujos braços desapareci como um gato assustado mal deu comigo. É um homem afetuoso, simples,  e com o coração tão frágil como o de um beija-flor.

Já não o via desde que falecera a companheira, há mais de um ano. Esfumou-se no Tempo, na solidão de uma casa sem vozes, entre as esquálidas árvores das estações. Agora, como um urso bonacheirão e aprazível,  surgiu da sua letargia e da sua longa hibernação emocional com cintilante vitalidade e entusiasmo.

Fotografar é a sua forma mais subtil de nos dizer que a vida continua, não obstante os muros do destino e as ruínas que se avolumam dentro de nós.

Passagem

Estou muito ocupado: a vida é uma dança e o tempo uma guitarra. Estou na idade da música.

Se vieres, canta comigo. Mas não tragas a cidade na tua mala. As fronteiras matam os sonhos.

*África?

Rodo a chave do meu quarto e logo o cheiro das goiabas. Fecho a porta. O sol da tarde desaparece por trás de mim.

Vou directo à pequena e humilde mesa, a um canto. A fruta repousa, num silêncio de perfume e memória, mesmo ao lado do meu portátil. Junto, o  livro de poemas de Jennifer Grotz, The Needle.

Ligo o ar-condicionado, descalço as sandálias e estiro-me na cama. Sinto-me no paraíso.

Tenho as cortinas fechadas e a luz do teto acesa. Uma osga ri, alto e inebriada, enquanto desliza na parede. Não estou sozinho. Esta presença inesperada deixa-me feliz e faz-me sentir acompanhado.

Pela manhã vagueei pela praça, entre a beatitude de rostos humildes e vozes solícitas. O cheiro do ar fez-me lembrar África. As cores, todas as cores, eram tão intensas que  reverberavam de vida e energia.

Passei depois o resto do dia junto ao mar e sob a fresca sombra de uma palmeira.

Almocei já um pouco tarde. O peixe, fabuloso, recordou-me um restaurante de S. Jorge de cujo nome não me recordo. Foi há tanto tempo, que um dia se lá voltar já não darei com ele.

Já a caminho do hotel, parei numa esplanada. Debati-me com três margaritas, geladíssimas. No meio da rua a luz dançava como uma criança.

No momento em que pagava, a empregada, de olhos cor de esmeralda:

“Conheço-o? A sua cara não me é estranha…”

“Espero bem que não”, disse-lhe, fazendo um gesto a rejeitar o troco. Saí de lá o mais depressa que pude.

Eu estava, estou aqui, para regressar a África. O passado já me interessa muito pouco.

É com este pensamento que prefiro adormecer.

*(Extrato de um romance em curso).