Um velho amigo

Entregue a um compromisso fotográfico com a edilidade local, dei com o Gerry no meio da rua. Estava de tripé a postes e a máquina, a sua venerável e lendária Nikon, apontada na direção da parada, que se aproximava.

O Gerry é um anglo-saxónico grande, volumoso, em cujos braços desapareci como um gato assustado mal deu comigo. É um homem afetuoso, simples,  e com o coração tão frágil como o de um beija-flor.

Já não o via desde que falecera a companheira, há mais de um ano. Esfumou-se no Tempo, na solidão de uma casa sem vozes, entre as esquálidas árvores das estações. Agora, como um urso bonacheirão e aprazível,  surgiu da sua letargia e da sua longa hibernação emocional com cintilante vitalidade e entusiasmo.

Fotografar é a sua forma mais subtil de nos dizer que a vida continua, não obstante os muros do destino e as ruínas que se avolumam dentro de nós.

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