O vizinho de Ponta Delgada

RembrandtO senhor João foi-se embora deste mundo há poucos dias. Era um homem simples, calado, humilde, filho dos campos e do mar e com uma espécie de orfandade nos olhos que é o sinal de cinzas que trazem todos aqueles que se adaptam à cidade como a um novo planeta. Morreu como morre uma árvore: junto às próprias raízes.

Vi-o muitas vezes debruçado na janela, atento aos movimentos da rua. O seu olhar acompanhava a claridade que deslizava pela calçada como uma nuvem cintilante, ou caía no chão húmido como uma grave sombra de melancolia. Quantas vezes, quem sabe, guardou dentro de si o sonho dos pobres da ilha: começar tudo de novo num país rico, mesmo com a chatice que é ter de aprender uma língua nova e enfrentar costumes estranhos. Não sei como interpretar a sua figura à janela — se a de um Rembrandt trágico, ou apenas a de um homem feliz, mesmo perante a crua evidência de ter no fim da rua o seu horizonte mais longínquo. Sei, no entanto, que ele ia ao seu encontro a contar o rumor de cada passo sob um céu triste de chuva eminente.

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