Mês: Dezembro 2013

Em busca do meu pai

melancoly_3As macieiras, cujos ramos se estendem languidamente sobre o muro de pedra, atiram à vista um verde inocente e inatingível. Apetece-me tocá-las, cheirá-las, colher nas mãos o sol bravo que as banha de luz. Mas o muro é alto, como uma fortaleza, pedra sobre pedra onde pespontam, aqui e ali, tiras de erva. Já não tenho idade para estas aventuras, embora me apeteça galgá-lo. Na minha juventude daria um salto. Agora, no entanto, subiria como um lagarto velho, mais cauteloso do que aventureiro.

Passei por ali há muitos anos num trajecto emocional pela infância do meu pai. Eu seguia a sua voz e os seus passos débeis enquanto ele ia atirando, devagar, a bengala adiante dos pés. Havia nele, no mais secreto de si, um misto de cinzas e júbilo.

Eu não conhecia Verride, esse bocado de terras, casas, vento e sol, esmagado sob um horizonte enigmático. Pareceu-me um lugar desprovido de raízes, uma instância de sentimentos em cuja ressonância se abrigavam aves de arribação, lugar de partida, sem permanência. Afigurou-se-me, no entanto, que a sua melancolia, o seu isolamento, eram parte de uma estrutura sentimental sem referências, como uma imagem estranha e incognoscível ante uma janela embaciada.

Volto agora, cego pela luz da memória, a estas ruas que sangram de silêncio. Vejo uma cegonha imponente, altiva e solitária, no alto de um poste. A claridade é dura, rasga como uma lâmina o ar quente que rescende à frescura dos verdes selvagens que se abrigam na paisagem.

Tenho consciência de que volto a um lugar que não existe, pelo menos dentro de mim. Mas a voz do meu pai caiou de sombras estas ruas estreitas, despidas de vida não fosse o galo a cortar, aguçado, ressonâncias inescrutáveis.

Sei que estou aqui sem propósito específico, sem um objectivo. No fundo, é como reter nas mãos uma camisa velha que foi do meu pai, abraçá-la num ímpeto de dor e melancolia. Depois deixá-la desaparecer na terra com a impregnação de uma rosa.

Ando pelas ruas como um cão vadio, a farejar o Tempo. Desnorteado, perdido num labirinto irreconciliável, hesito. Lembro-me de uma igreja, da sua imponência ao alto. Foi esse ponto de encontro com o passado que me fez interceptar duas senhoras.

Uma delas aproxima-se do carro com os seus cabelos grisalhos e revoltos, a pele do rosto maltratada pelas substâncias duras da vida.

«Volte logo à direita que a encontra» diz-me, calorosa.

Encontro-a, uma presença branca, sólida, que aparece de repente ao virar a esquina. E agora? Admiro a sua imponência mas busco a majestade e o abrigo do seu interior. As portas, fechadas, deixam-me um instante indeciso. Vagueio pelas traseiras, passando um portão de ferro. Do lar de idosos, que se esconde nos anexos, vem o cheiro do almoço. Passo discretamente e vou sair do outro lado da rua.

Desemboco na dúvida de estar ali, no propósito. Sinto, mas não vejo o que sinto. Não está ali o que procuro porque me dá a sensação de que a tribo se dispersou, desintegrou-se, e só o vento, o seco vento da tarde me traz uma vaga notícia das pedras que piso.

Decido então procurar o café onde estive com o meu pai e o primo Zé. Entro no primeiro que vejo. À entrada, muito digno, muito intelectual, com uma barbicha de filósofo e um casaco cinzento às riscas, um sujeito lê o jornal. Corresponde à minha saudação com uma ligeira vénia. Está nos anos da reforma, suponho, sob uma cabeleira rubra de buganvílias que o abriga do sol mas que num entanto deixa a descoberto um céu de tom glauco, a espreitar por entre as suas hastes.

Peço um café e sento-me. Olho em volta. Não reconheço aquele lugar. Tem cores garridas, frescas, que me fazem lembrar um restaurante magnífico de comida vegetariana que descobri por acaso numa rua de pouco tráfego em Puerto Valllarta, México. Antes de sair mato a sede com uma Frize de limão fresca.

Saio, volto à esquerda e vou pela rua acima ao encontro do passado.

Não o encontro, mas dou com o café. Subo o pequeno lance de escadas. Prende-se-me aos músculos das pernas a hesitação de quem se aproxima do vazio, de uma atmosfera de dúvida, com se de repente a interminável distância entre mim e o meu pai fosse um mero erro de cálculo num calendário polifásico. Prossigo. Vou até ao fim das minhas dúvidas, sabendo que ao abraçar uma pedra na inevitabilidade do destino não encontro a flor da clarividência mas uma casa desabitada. A grande, imensa casa da nossa condição humana onde tudo nasce e se apaga ao ritmo incontrolável dos dias.