Mês: Junho 2014

Anoitecer

A cal da noite aproxima-se do muro. Vai pintando de escuro a sombra da magnólia, o canto do pássaro e o cristal de uma gota de água. Estou descalço sobre a relva de junho. Observo o lento movimento da brisa e o breve assobio que deixa na folha inclinada. Este jardim, que já foi o templo de um olhar, é agora um tecido de rumores. Leva pela mão a criança que parte de mim. Num repente perdem-se os dois entre as árvores.

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Natureza humana

Falamos de amor e no entanto usamos de crueldade uns para com os outros, somos cínicos, indiferentes, insensatos, egoístas, materialistas, falamos de democracia e nem sequer admitimos a opinião dos outros porque o mundo tem uma órbita de luz em volta do nosso umbigo, dizemos que somos amigos e não perdoamos as faltas dos nossos amigos, regozijamo-nos com o sofrimento dos nossos inimigos, desdenhamos dos pobres, dos ignorantes, dos incapacitados, sentimo-nos superiores àqueles que nos levam o lixo todas as semanas, às meninas que nos registam as compras nos supermercados, aos polícias, aos engraxadores de rua, aos jardineiros, aos que não têm a mesma cor que nós, aos que dormem encostados ao silêncio da noite, sozinhos, sujos, famintos, a cheirar mal, usamos o conhecimento como forma  de estratificação social, a fama para levitarmos no nosso ego, a religião para ignorarmos o outro, culpamos Deus pelas obras do Diabo, maltratamos as mulheres, as crianças e os animais, falamos de solidariedade e só temos rancor contra tudo e todos, nunca perdoamos porque estamos sempre certos, somos solidários no facebook mas não sentimos empatia por aqueles com quem nos cruzamos na rua e que às vezes só precisam de uma palavra do tamanho de uma laranja. Somos isto: uma farsa que baila alegremente na indiferença e no palco virtual deste presente hipócrita.