Histórias da história/1

Saía do café a pensar na chuva. Quase à saída, sentado a uma mesa do canto, o professor, um homem de grosso cachecol enrolado ao pescoço, ar sisudo, cinzento como o fumo de um charuto velho lia, compenetrado, o jornal.
«Bom dia!», disse o poeta, desviando-se à pressa de uma senhora que entrava de guarda-chuva na mão direita, a gabardina molhada e os cabelos desalinhados pelas atrevidas carícias do vento.
«Bom dia!», respondeu o professor olhando o poeta por cima dos aros dos óculos.
«Tenha cuidado, não se molhe. A ilha está toda branca».
O poeta gostou da metáfora.
«A chuva é branca no inverno, professor. Confunde-nos. Mas não se preocupe: voarei por entre os pingos como as palavras entre as suas lentes».
Nesse momento ouviu-se uma voz no espelho, alta, agreste:
«Ó Ramires, não se esqueça de pagar a conta!»
«Bolas!» balbuciou o professor fechando o jornal. «Esqueci-me de ir ao Banco».
Dobrou o jornal muito à pressa, meteu-o num saco plástico e saiu com a voz do espelho a gritar-lhe nos pés com a fúria de um cão raivoso.

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Um pensamento sobre “Histórias da história/1

  1. não podes vê-lo

    mas sempre que estás com ele
    vives um pouco mais de ti

    e então respiras.

    o que ele é
    veio através da chuva

    e sobre ti
    caiu

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