Mês: Dezembro 2014

O Conde

Eduardo Bettencourt Pinto

Sobre as cabeças cintilavam ruidosos ecrãs de televisão. Muita tensão no ar. Era noite de hóquei. Boxe-hóquei, como lhe chamo. Vancouver perdia por um zero contra os ferozes opositores de Edmonton. Do público ouviam-se berros, exclamações frustradas em estereofonia. Viam-se pescoços hirtos. Adivinhavam-se nervos esticados como cordas de bambu.
A certo momento dois jogadores olharam-se como dois galináceos enfurecidos. Até que se engalfinharam. Saiu murraça colegial. Algumas mesas à minha esquerda um tipo, já com os neurónios anestesiados pelo álcool, levantou, muito animado, a caneca de cerveja: tinha chegado ao paraíso. Entretanto, os jogadores acabaram no gelo um em cima do outro, muito agitados como lagartos abespinhados. Por fim, o árbitro conseguiu separá-los. Depois expulsou-os do jogo.
O jogo terminou com os de Edmonton a perder por um golo. Sem esse entretenimento, o público voltou ao convívio com o álcool e o colesterol em abundância.
Meia hora depois, a banda de rock começou a actuar.
Cinco senhoras, na idade do vinho maduro, bebiam-no com sofreguidão e prazer mesmo na mesa ao lado. De caminho seria necessário uma adega.
De repente duas delas, emocionadas com uma canção, levantaram-se e foram dançar. As outras deixaram-se ficar. Muito sentadas, gritavam entre si para se ouvirem.
E assim foi correndo a noite.
De súbito, braços ao alto, apareceu um sujeito entre os pares dançantes. Parecia estar sob a ameaça de uma pistola. O gesto, porém, não era mais do que uma demonstração da sua evidente busca de visibilidade:
«Cheguei, mundo. Olhem para mim!»
Tinha todo o ar de um conde moldado para o sucesso e a notoriedade. O sorriso, largo, rasgado, era apoteótico. Os dentes sobressaíam numa linha muito branca, muito perfeita. Tudo junto assinalava o alto regozijo de um homem muito feliz com o seu próprio ego.
Trajava descontraidamente: camisa às riscas fora das calças de ganga. Para mal dos seus pecados, não conseguia encobrir a barriga proeminente. Era um odre de cerveja. Possivelmente continha muitos, incontáveis anos de mordomias.
Convenhamos que ele avançou com quem marchava, à general, muito hirto, seguro de si, a pele da testa esticada pela expressão de felicidade que se espalhava por todo ele.
«Minhas queridas!» julguei ouvi-lo dizer, animadíssimo, a cair de corpo inteiro na mesa das meninas do vinho. Uma levantou-se, agitada, como se estivesse sob o efeito de um choque eléctrico. Ele, muito fluído, beijinho na boca dela, todo ternuras, todo mãos, tomou-a pela cintura. De seguida puxou-a contra si e abraçou-a muito. As suas mãos atrevidas desceram pelas costas dela, lentas, roçando a blusa num cicio de cobra. Acabaram, numa ousadia desconcertante, no traseiro muito carnudo. E lá ficaram até se cansarem. Fez tudo isso sem a grave impertinência de um gigolô. Esses fazem horas extraordinárias ajudados pelo vigor do Cialis ou do Viagra. Ele parecia estar em território próprio, num à-vontade de posse, numa de conde virtual, cheio de si. Um tipo porreiro, desses dos copos, malta da pesada, previsível e banal como são todas as personagens de plástico desses círculos de frustração.
Para meu espanto, fez o mesmo com as outras senhoras. Estava em casa, afinal.
Muito divertido, impressionado com o ritmo da música, o conde tomou uma das senhoras pela mão e foram traçar nuvens de dança impressionista na pista. Soltou-se, soltou-se muito, braços abertos, dando reviravoltas estonteantes e surpreendentes nos bicos dos pés numa agilidade de símio. A parceira, visivelmente atrapalhada, deixava-se levar por aquela mão máscula que a dirigia por irreverentes caminhos de perdição e fatiga. Para um sujeito tão abaulado, tamanha agilidade e energia parecia coisa sobrenatural.
E assim foi correndo a noite.
Horas depois o conde puxou da carteira. A empregada de mesa, paciente, reparava abismada na quantidade de cartões que iam aparecendo. A mesa estava vazia. A música abrandava. O conde, pelo canto do olho, disse adeus às companheiras que acenavam da porta.
Hesitou um momento na escolha do cartão de crédito. Em qual deles pôr o vinho, as apalpadelas, o protagonismo, o riso? Havia um pequeno conflito no seu olhar e que lhe acrescentava ao rosto uma nuvem de apreensão. Parecia contrariado. Se calhar não antecipara que o preço da sua popularidade lhe fosse sair tão caro.