Mês: Fevereiro 2015

A senhora dos Açores

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[Eduardo Bettencourt Pinto]

Alguns dias antes do Natal vou abastecer-me de bacalhau a uma loja portuguesa. Fica quase a uma hora aqui de casa. Mas vou. É uma tradição de família que gosto de preservar.

Meto-me pela autoestrada. Lentamente vão ficando para trás as montanhas de Pitt Meadows. Não tarda e tornam-se numa insondável capa de neblina que obscurece o retrovisor.

Antes de lá chegar, enfrento as ruas abstractas de Burnaby. Assalta-me um tédio incontornável. Trânsito, muito trânsito, e seja qual for, deixa-me afogado numa modorra de bocejo.

Dessa vez, além do venerável bacalhau, dei com azeitonas de Portugal, queijo e chouriço picante. Senti-me feliz. Os odores e paladares aos quais estamos habituados são uma permuta entre a memória e a sentimentalidade. Parece atitude de provinciano, e banal, dirão os cínicos. Só quem vive no estrangeiro, porém, tem o verdadeiro entendimento destes pequenos prazeres. E não é por eles que o mundo perde a eloquência.

Atendeu-me uma senhora baixinha e de sorriso agradável.

«Como está o senhor?»

Notei-lhe o pronunciado sotaque micaelense. Senti logo uma grande ternura por ela.

«De que freguesia de S. Miguel é a senhora?»

Olhou para mim com uma enorme expressão de espanto.

«Como é que o senhor adivinhou que sou dos Açores?»

«Intuição, pura intuição» disse-lhe, comovido com a sua inocência.

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O porteiro do Banco

Um sujeito cambuta, vestido com a notória extravagância de um porteiro muito fino, avançou o braço.

“Desculpe, mas não pode entrar.”

Eu estava na minha cidade, Luanda. O tom da voz vinha carregado de autoridade oficial.

“Ora! Não posso entrar por quê?”

“Está de calções…”

Sacudi a cabeça. Pareceu-me uma razão surrealista ou zelo exacerbado.

“Se entrasse nu, ainda compreendia. Agora de calções.Qual é o mal em entrar de calções?”

“É falta de respeito” disse, franzindo a testa suada.

O homem morria de calor e tive pena dele. Cumpria ordens, por mais absurdas que fossem.

Passados momentos, uma mulata gingona passou por nós a sacudir a bunda. Trazia uma mini-saia tão curta que uma leve brisa podia revelar as calcinhas. Abriu a porta e entrou para o ar condicionado.

“Como é? Calção não pode entrar mas mini-saia quase na bunda pode, né?”

O porteiro sorriu, distendendo a linha do bigode muito fininha.

“Está a enfeitar”, justificou-se, na iminência de soltar uma gargalhada.

O humor salva o mundo da insensatez, pensei. Soube-me bem ouvi-lo rir.

Roubaram-me a Cacilda – um caso de ladrões sem carteira profissional

[Eduardo Bettencourt Pinto]Cacilda

«Não vejo a Cacilda», disse a Anabela.

A manhã, escura e fria, deixava na cozinha um ambiente soturno e nostálgico. Janeiro é um mês cinzento. Aproximei-me da janela, isto é, do escuro poisado nos vidros. A água para o café fervia na chaleira. Espreitei: a rua deserta. Pitt Meadows é assim, uma espécie de silêncio habitado por silhuetas.

A carrinha não estava. Desci as escadas rapidamente, abri a porta. Nada. Foi um acto inútil, eu sei. Mas às vezes não queremos aceitar a evidência da realidade. Fiquei um momento pensativo, a decifrar os contornos da minha incredulidade. Quando somos roubados sentimos uma revolta absurda, quase irracional, a apoderar-se de nós. Depois, com o letárgico rolar das horas, sobrevém o agastamento. E com ele um frio de angústia, abraçado a uma enorme sensação de vulnerabilidade.

A quem interessaria uma Toyota antiga e sem qualquer aparato estético? Os delinquentes, porém, têm tanto de pragmáticos quanto de irracionais. Depois, que consequências têm no caso de as coisas lhes correrem mal? O pior que lhes pode acontecer é esperá-los uma cela confortável, aquecida, convívio e jogos de xadrez, de cartas, televisão. E ginásio, pois. Com todo o vagar podem trabalhar os músculos e a imagem.

Têm sorte. Em Angola não seria assim. A justiça popular é uma coisa temível e séria. Um ladrão, se apanhado, terá imensa sorte se for entregue à polícia. Entretanto leva uma coça de tal modo que fica mais depenado do que uma galinha após um banho de água a ferver. Na melhor das hipóteses, sai do local do crime a rastejar como um lagarto asmático. Os meus conterrâneos têm um rancor de ordem selvagem para com os ladrões. Vingam-se, vingam-se com toda a alma quando os têm sob as suas mãos justiceiras. Gatuno é inimigo do povo. Os que roubam nos gabinetes, porém, estão fora desta área de punição popular. Há um cordão psicológico e físico que os mantém protegidos. Até porque acima de um milhão de dólares não é um roubo mas um desvio de fundos. Mais do que dois milhões passa a tratado económico metafórico e com variantes semânticas. É uma coisa chique e legítima para aqueles que o podem fazer. Afinal, trata-se, vamos lá, de um um acto criativo e de coragem. Requer imaginação e objetividade. Algo, digamos, com a mesma carga simbólica da arte abstrata. Convenhamos que um homem de fato e gravata, óculos escuros, BMW preto e luzidio à porta está mais próximo da figura do James Bond do que um desgraçado que foge da multidão a largar poeira desesperada. O que divide ambos os ladrões é a classe social. Isso é, vistas bem as coisas, a ética insólita que ajuda os poderosos a beneficiarem da impunidade mais descarada do século XXI.

Senti rancor por me terem levado a Cacilda. Era metal velho e com alguns buracos. Mas, caramba, era minha. Vivemos muitos episódios juntos. Ajudou-me a transportar ramos de árvores, erva, móveis. Terra para o jardim. A Yamaha. Fez até de cama numa viagem. Abrigou-me da chuva. E, já agora, recordo aquela ocasião em que dançámos na neve num tempestuoso dia de Inverno. Abracei com ela distâncias enormes e nunca se portou como o Pelé, um inqualificável Chevrolet Nova que me fintava descaradamente. Quero dizer, tinha vontade própria: se eu queria ir para o serviço, tentava levar-me para o aeroporto. Ao conduzi-lo sentia-me num jogo de futebol a driblar, e de olhos esbugalhados, a estrada e os outros carros. A Cacilda não. Foi sempre muito certinha, obediente e leal.
Quando olhei para baixo, onde a deixara estacionada na véspera, e descobri apenas o vazio, assaltou-me a estranha sensação de que não me tinham roubado a carrinha mas as minhas memórias.