Roubaram-me a Cacilda – um caso de ladrões sem carteira profissional

[Eduardo Bettencourt Pinto]Cacilda

«Não vejo a Cacilda», disse a Anabela.

A manhã, escura e fria, deixava na cozinha um ambiente soturno e nostálgico. Janeiro é um mês cinzento. Aproximei-me da janela, isto é, do escuro poisado nos vidros. A água para o café fervia na chaleira. Espreitei: a rua deserta. Pitt Meadows é assim, uma espécie de silêncio habitado por silhuetas.

A carrinha não estava. Desci as escadas rapidamente, abri a porta. Nada. Foi um acto inútil, eu sei. Mas às vezes não queremos aceitar a evidência da realidade. Fiquei um momento pensativo, a decifrar os contornos da minha incredulidade. Quando somos roubados sentimos uma revolta absurda, quase irracional, a apoderar-se de nós. Depois, com o letárgico rolar das horas, sobrevém o agastamento. E com ele um frio de angústia, abraçado a uma enorme sensação de vulnerabilidade.

A quem interessaria uma Toyota antiga e sem qualquer aparato estético? Os delinquentes, porém, têm tanto de pragmáticos quanto de irracionais. Depois, que consequências têm no caso de as coisas lhes correrem mal? O pior que lhes pode acontecer é esperá-los uma cela confortável, aquecida, convívio e jogos de xadrez, de cartas, televisão. E ginásio, pois. Com todo o vagar podem trabalhar os músculos e a imagem.

Têm sorte. Em Angola não seria assim. A justiça popular é uma coisa temível e séria. Um ladrão, se apanhado, terá imensa sorte se for entregue à polícia. Entretanto leva uma coça de tal modo que fica mais depenado do que uma galinha após um banho de água a ferver. Na melhor das hipóteses, sai do local do crime a rastejar como um lagarto asmático. Os meus conterrâneos têm um rancor de ordem selvagem para com os ladrões. Vingam-se, vingam-se com toda a alma quando os têm sob as suas mãos justiceiras. Gatuno é inimigo do povo. Os que roubam nos gabinetes, porém, estão fora desta área de punição popular. Há um cordão psicológico e físico que os mantém protegidos. Até porque acima de um milhão de dólares não é um roubo mas um desvio de fundos. Mais do que dois milhões passa a tratado económico metafórico e com variantes semânticas. É uma coisa chique e legítima para aqueles que o podem fazer. Afinal, trata-se, vamos lá, de um um acto criativo e de coragem. Requer imaginação e objetividade. Algo, digamos, com a mesma carga simbólica da arte abstrata. Convenhamos que um homem de fato e gravata, óculos escuros, BMW preto e luzidio à porta está mais próximo da figura do James Bond do que um desgraçado que foge da multidão a largar poeira desesperada. O que divide ambos os ladrões é a classe social. Isso é, vistas bem as coisas, a ética insólita que ajuda os poderosos a beneficiarem da impunidade mais descarada do século XXI.

Senti rancor por me terem levado a Cacilda. Era metal velho e com alguns buracos. Mas, caramba, era minha. Vivemos muitos episódios juntos. Ajudou-me a transportar ramos de árvores, erva, móveis. Terra para o jardim. A Yamaha. Fez até de cama numa viagem. Abrigou-me da chuva. E, já agora, recordo aquela ocasião em que dançámos na neve num tempestuoso dia de Inverno. Abracei com ela distâncias enormes e nunca se portou como o Pelé, um inqualificável Chevrolet Nova que me fintava descaradamente. Quero dizer, tinha vontade própria: se eu queria ir para o serviço, tentava levar-me para o aeroporto. Ao conduzi-lo sentia-me num jogo de futebol a driblar, e de olhos esbugalhados, a estrada e os outros carros. A Cacilda não. Foi sempre muito certinha, obediente e leal.
Quando olhei para baixo, onde a deixara estacionada na véspera, e descobri apenas o vazio, assaltou-me a estranha sensação de que não me tinham roubado a carrinha mas as minhas memórias.


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