O porteiro do Banco

Um sujeito cambuta, vestido com a notória extravagância de um porteiro muito fino, avançou o braço.

“Desculpe, mas não pode entrar.”

Eu estava na minha cidade, Luanda. O tom da voz vinha carregado de autoridade oficial.

“Ora! Não posso entrar por quê?”

“Está de calções…”

Sacudi a cabeça. Pareceu-me uma razão surrealista ou zelo exacerbado.

“Se entrasse nu, ainda compreendia. Agora de calções.Qual é o mal em entrar de calções?”

“É falta de respeito” disse, franzindo a testa suada.

O homem morria de calor e tive pena dele. Cumpria ordens, por mais absurdas que fossem.

Passados momentos, uma mulata gingona passou por nós a sacudir a bunda. Trazia uma mini-saia tão curta que uma leve brisa podia revelar as calcinhas. Abriu a porta e entrou para o ar condicionado.

“Como é? Calção não pode entrar mas mini-saia quase na bunda pode, né?”

O porteiro sorriu, distendendo a linha do bigode muito fininha.

“Está a enfeitar”, justificou-se, na iminência de soltar uma gargalhada.

O humor salva o mundo da insensatez, pensei. Soube-me bem ouvi-lo rir.

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