A senhora dos Açores

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[Eduardo Bettencourt Pinto]

Alguns dias antes do Natal vou abastecer-me de bacalhau a uma loja portuguesa. Fica quase a uma hora aqui de casa. Mas vou. É uma tradição de família que gosto de preservar.

Meto-me pela autoestrada. Lentamente vão ficando para trás as montanhas de Pitt Meadows. Não tarda e tornam-se numa insondável capa de neblina que obscurece o retrovisor.

Antes de lá chegar, enfrento as ruas abstractas de Burnaby. Assalta-me um tédio incontornável. Trânsito, muito trânsito, e seja qual for, deixa-me afogado numa modorra de bocejo.

Dessa vez, além do venerável bacalhau, dei com azeitonas de Portugal, queijo e chouriço picante. Senti-me feliz. Os odores e paladares aos quais estamos habituados são uma permuta entre a memória e a sentimentalidade. Parece atitude de provinciano, e banal, dirão os cínicos. Só quem vive no estrangeiro, porém, tem o verdadeiro entendimento destes pequenos prazeres. E não é por eles que o mundo perde a eloquência.

Atendeu-me uma senhora baixinha e de sorriso agradável.

«Como está o senhor?»

Notei-lhe o pronunciado sotaque micaelense. Senti logo uma grande ternura por ela.

«De que freguesia de S. Miguel é a senhora?»

Olhou para mim com uma enorme expressão de espanto.

«Como é que o senhor adivinhou que sou dos Açores?»

«Intuição, pura intuição» disse-lhe, comovido com a sua inocência.

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