Mês: Março 2015

Histórias da história/3

ÊXTASE
Eduardo Bettencourt Pinto

Não há regras na loucura. Há realidades íntimas, percepções. Labirintos. A madrugada de todos os dias é um exercício abstracto entre imaginação e caos. Os pensamentos comunicam entre si através de energia em constante conflito. Apaga-se a mente como a luz numa casa: a cada instante o raciocínio é uma dispersão de símbolos e metamorfoses. O que vive dentro da cabeça não é uma reprodução do olhar nem o descodificar de uma imagem. É um sintoma. O deserto. É nele que se transfigura o mundo, tombam os muros da lógica e um anjo maldito persegue o sentido das coisas com uma espada de fogo.

«Vi um homem saltar o muro», disse Deolinda. «Depois andou pelo jardim, curvado como se tivesse o olhar preso ao chão. Uma presença insondável. Transbordava segurança, indiferente às consequências de estar em casa alheia e sem permissão. Parecia ter a inocência de uma criança, percebes? Veio, andou por tudo o que é sítio e não deu palavra a ninguém. Nem deu por mim. Cirandava pelo quintal agachado, encolhido. Só depois me apercebi de que ele era corcunda. Levava as mãos atrás das costas e demorava-se a observar as flores como se quisesse comunicar com elas. Estava tão descontraído, tão seguro de si, como se fosse desta casa. Curiosamente, não tive medo dele. Nem sequer me passou pela cabeça chamar a polícia.

«Observei-o muito encostada ao vidro da janela. Até me deu o cheiro da humidade do quintal. Tinha chovido muito nessa manhã e o ar era pesado, causticante. O vidro embaciou logo. Limpei-o com as costas das mãos. Estava empenhada em acompanhar os seus movimentos. Posso até dizer que me encontrava paralisada com aquela presença assombrosa.

«Passava pelas plantas como um temporal mesmo sem tocar em nada, desarrumando hastes, folhas, as camélias. Imagina! As minhas queridas camélias! Uma presença, diria, marcada por um fenómeno estranho, como se o universo eclodisse à sua passagem, destruindo tudo à volta como numa desenfreada loucura de ventos. Não era um homem que estava ali, nem uma presença divina que surpreendesse os sentidos. Era uma substância absurda e que deixava atrás de si um rasto de folhas caídas, dispersas pelo chão como lampejos de um vazio sem fim. Aquele desrespeito pelo meu jardim começou a revoltar-me. Foi então que ele me viu.»

Deolinda fez uma pausa para acender o candeeiro de pé. Aproveitou e correu as cortinas que davam para o jardim. A sala tornou-se mais íntima.

«Queres um chá?» perguntou à amiga.

Jacira era uma senhora de caracóis grisalhos, caídos languidamente sobre a testa. Estava confortável, recostada no cadeirão de veludo. Ficou contrariada com a interrupção. Gostava dos relatos de Deolinda.

«Caía bem com o resto da história» disse, endireitando as costas.

Deolinda voltou com uma bandeja de prata, duas xícaras, bolachinhas de manteiga e um bule a fumegar. Colocou tudo numa mesinha de pernas curtas. Serviu a amiga.

«Podias transformar a tua casa numa biblioteca pública» observou Jacira apontando os livros na estante que ocupava por inteiro uma das paredes.

«Não ia gostar. Imagina quantas mãos não passariam por estes volumes. Pego num livro como quem recebe uma voz. Com cuidado. Em alguns casos até com reverência. Carinho. Viajo quando leio, saio de mim. Sabes que há gente que pega nas coisas sem qualquer critério. E se reparares, são assim com tudo. Até consigo próprias. Não valorizam nada. Minha mãe, que Deus tenha num bom lugar, ensinou-me que além da fé, o amor e outros sentimentos nobres, o saber é algo que nos deve desafiar constantemente. Isso agrada-me. Respeito muito as pessoas que se interessam pelas coisas do espírito. Detesto a vulgaridade, o declínio dos modos, a falta de critério.»

«Mas quem vai a uma biblioteca não é uma pessoa diferente?»

«Algumas, suponho. Nunca me ocorreu analisar os leitores que apareciam na biblioteca. Mas o certo é que muitos volumes não eram manuseados com cuidado. Isso era evidente: deixavam vestígios de brutalidade. Notava-se nos vínculos, nas folhas e nas capas rasgadas. Apeteceu-me muitas vezes impedir a entrada de certa gente.»

Deolinda era uma mulher elegante, alta, delgada. Mesmo que não saísse de casa, vestia-se com rigor. O mesmo que teve durante trinta e cinco anos como directora da biblioteca pública.

«Voltamos à história?» disse sentando-se. A luz do candeeiro iluminou-lhe o perfil.

«Quando o homem se apercebeu de que eu estava aqui na janela a observá-lo ficou, ao princípio, muito admirado. Espantou-me a sua expressão infantil, um rosto limpo, de uma brancura pueril. Isso vê-se nas pessoas que não têm o espírito alienado pelas rugas. Vivem bem entre esses rios de pele, iluminadas, seguras do seu carácter, da sua pessoa. De repente, deu uma corrida e veio ter comigo à janela. Olhei para baixo e só lhe consegui ver o topo da cabeça. Levantou os braços como se me quisesse abraçar através dos vidros. Notei-lhe as mãos, dois pequenos sinais de frenesim, os dedos abertos como numa súplica. Até que ele começou a saltar. Foi então que lhe vi os olhos. Olha, Jacira, não te sei explicar. Eram lindos os seus olhos, de um verde que chora de intensidade e que entra por nós com o mistério de uma floresta. Há pessoas assim. Trazem dentro de si a história do mundo, todo o júbilo e toda a solidão, aquilo que é trágico e sublime. Entendes? Eram os olhos de uma criança a brilharem de verde nos olhos de um homem escondido dentro deles. Arrepiei-me toda. Não aguentei e corri para a porta. Devo tê-lo assustado. Ao chegar ao quintal só lhe vi as solas dos sapatos enquanto saltava o muro. Desapareceu num mergulho para a rua, como um pássaro. Chorei, chorei muito e não sei porquê.»

«Nunca mais soubeste dele?» perguntou Jacira.

«Sim, ontem. Folheava o jornal e dei com uma notícia sobre ele. Aparentemente entrou numa loja de instrumentos musicais e pediu ao dono que lhe deixasse experimentar um acordeão. Ao pegar nele, o corcunda entrou logo num estado de puro êxtase. Abraçou-se muito ao instrumento. Se pareceu ao proprietário da loja uma atitude bizarra, em poucos minutos se desvaneceu essa impressão: o cliente tocava divinamente. Ficou convencido de que estava perante algo extraordinário. Mágico. O corcunda, de olhos fechados, parecia em transe. Mexia a cabeça como o vento a rosa. As mãos, essas dançavam com os acordes. Rodeava-o uma áurea cristalina. A sua exibição tinha mais a ver com o virtuosismo de um anjo do que um assombroso talento humano.

«O sujeito da loja ficou tão impressionado com o corcunda que não o deteve quando este saiu do estabelecimento com o acordeão. E sem pagar. Seguiu-o pelas ruas extasiado e com a humildade de um discípulo. Ou seja: ia atrás da música. De vez em quando parava e aplaudia-o com palmas muito sonoras.»

«Em que jornal é que saiu a notícia?» perguntou Jacira.

«No Diário, como deves calcular. É esse que subscrevo há anos.»

«Curioso», disse Jacira. «Também li o Diário de ontem e não vi essa notícia. Admiro-me muito porque nunca me escapa nada.»

«Ora», respondeu Deolinda. «Alguma vez tinha de ser a primeira, não?»

Histórias da história/2

Agravo e tempestade
[Eduardo Bettencourt Pinto]

 

Carl lançou sobre Marisa um olhar melancólico.
«Estou a ficar velho», murmurou.
«O quê?»
Uma mota, estridente, abafou-lhe a voz.
«Sinto-me a envelhecer…», repetiu.
«Concordo», disse Marisa, levantando o copo com sumo de laranja.
«Obrigado» ripostou Carl com ironia.
Não esperava ouvir aquilo. É certo que detestava ser contrariado. Para si, a verdade dos factos passava sempre pela sua perspectiva. Era um argumentador obsessivo, batalhador. Usava as palavras como se fossem espadas, canivetes, espinhos. Mas nessa manhã de sol e lazer, teria gostado de ser contrariado. Caramba!, pensou. Há mentiras que são doces como frutos. Por outro lado, há verdades demasiado cruas para serem desejáveis.
«Não foi a tua pele que envelheceu, Carl. Nem os olhos. Tão pouco os ossos. Foi, acredita, o fantasma dos teus pensamentos. Isso sim. Olhas as coisas através da escuridão de um cego. Deixaste de observar o mundo. Vives encerrado num cárcere emocional e ninguém te resgata daí. És um ancião de bengala, trôpego e infeliz, dentro de ti».
«Que raio, Marisa!
«O cheiro do café não mudou, a cor do sol, o rumor da abelha sobre a flor, o ritmo da chuva. Tu é que mudaste. Tens agora uma visão fatalista do mundo. Deixaste-te absorver languidamente pelas crispações deste país. Perdeste o sonho, a utopia. O mar dentro das mãos. És um homem de pedestais muito vulneráveis, protegido apenas por frágeis escudos de cinza. Ao menor sopro caem como sombras e ficas despido de artifícios. Como uma pedra que, atirada para o lago, morre dentro da água e do esquecimento».
Carl sentiu que se abatia sobre ele um vendaval de palavras afrontosas. Achou-as injustas, excessivas. Um exercício de insinuações.
Levantou-se precipitadamente, abriu a carteira e tirou uma nota. Com um gesto de soberba, atirou-a para a mesa. Caiu mesmo ao lado da chávena do café por beber.
«Hoje pago eu», disse com secura.
E foi-se embora.
Nas suas costas chovia de mansinho a luz matinal. Marisa ficou a vê-lo afastar-se do café, os ombros curvos, caídos. Era a imagem de um vencido a lutar contra si próprio. Ainda alimentou a esperança de um aceno, de um breve mas conciliador gesto de adeus. Não o teve, porém. Os deuses de barro morrem sempre pelos pés.
«Volta amanhã», murmurou Marisa. «As aves de rapina precisam de mais céu para engendrarem os seus voos rasteiros», concluiu.
Não sabia se o júbilo que sentia era por Carl se ter ido embora, ou por tudo aquilo que lhe disse.