Histórias da história/2

Agravo e tempestade
[Eduardo Bettencourt Pinto]

 

Carl lançou sobre Marisa um olhar melancólico.
«Estou a ficar velho», murmurou.
«O quê?»
Uma mota, estridente, abafou-lhe a voz.
«Sinto-me a envelhecer…», repetiu.
«Concordo», disse Marisa, levantando o copo com sumo de laranja.
«Obrigado» ripostou Carl com ironia.
Não esperava ouvir aquilo. É certo que detestava ser contrariado. Para si, a verdade dos factos passava sempre pela sua perspectiva. Era um argumentador obsessivo, batalhador. Usava as palavras como se fossem espadas, canivetes, espinhos. Mas nessa manhã de sol e lazer, teria gostado de ser contrariado. Caramba!, pensou. Há mentiras que são doces como frutos. Por outro lado, há verdades demasiado cruas para serem desejáveis.
«Não foi a tua pele que envelheceu, Carl. Nem os olhos. Tão pouco os ossos. Foi, acredita, o fantasma dos teus pensamentos. Isso sim. Olhas as coisas através da escuridão de um cego. Deixaste de observar o mundo. Vives encerrado num cárcere emocional e ninguém te resgata daí. És um ancião de bengala, trôpego e infeliz, dentro de ti».
«Que raio, Marisa!
«O cheiro do café não mudou, a cor do sol, o rumor da abelha sobre a flor, o ritmo da chuva. Tu é que mudaste. Tens agora uma visão fatalista do mundo. Deixaste-te absorver languidamente pelas crispações deste país. Perdeste o sonho, a utopia. O mar dentro das mãos. És um homem de pedestais muito vulneráveis, protegido apenas por frágeis escudos de cinza. Ao menor sopro caem como sombras e ficas despido de artifícios. Como uma pedra que, atirada para o lago, morre dentro da água e do esquecimento».
Carl sentiu que se abatia sobre ele um vendaval de palavras afrontosas. Achou-as injustas, excessivas. Um exercício de insinuações.
Levantou-se precipitadamente, abriu a carteira e tirou uma nota. Com um gesto de soberba, atirou-a para a mesa. Caiu mesmo ao lado da chávena do café por beber.
«Hoje pago eu», disse com secura.
E foi-se embora.
Nas suas costas chovia de mansinho a luz matinal. Marisa ficou a vê-lo afastar-se do café, os ombros curvos, caídos. Era a imagem de um vencido a lutar contra si próprio. Ainda alimentou a esperança de um aceno, de um breve mas conciliador gesto de adeus. Não o teve, porém. Os deuses de barro morrem sempre pelos pés.
«Volta amanhã», murmurou Marisa. «As aves de rapina precisam de mais céu para engendrarem os seus voos rasteiros», concluiu.
Não sabia se o júbilo que sentia era por Carl se ter ido embora, ou por tudo aquilo que lhe disse.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s