Mês: Junho 2015

Entre memória e o olhar

Debruço-me sobre a paisagem que cresce a pique entre o fulgor de Junho.

Na varanda, observo os flamingos na conquista dos espaços. A tarde, cintilante,

raspa a superfície da água.

Estou novamente em África, ou na memória. Tanto faz.

As palavras são os meus olhos.

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Caminhos antagónicos

[Eduardo Bettencourt Pinto]

 

Ela aproximou-se de mim e sussurrou:

«Posso pedir-lhe um favor? Não me tire fotografias. Não estou no meu melhor.»

Surpreendeu-me o pedido. Tinha comigo uma velha Pentax de 35 milímetros e que se recusava a focar. Ia guardá-la no estojo quando fui interpelado. Era mais um adorno do que um objecto útil. A mulher, baixa, redonda, vinha de saia curta, muito acima do joelho. Tinha o ar rústico de uma aldeã mas com a postura rígida de um sargento em pleno exercício dos seus poderes. O seu olhar ficou suspenso sobre mim com pequenas chispas de mistério.

«NãOLYMPUS DIGITAL CAMERAo se preocupe. Esta máquina é antiga e recusa-se a trabalhar.»

Ao contrário do que ela pensava, em termos de fotografia pouco interessa as pessoas mas o seu enquadramento.

O sol cintilava, lânguido, nos vidros do café. Lá fora, sentada a uma mesa e alheia aos movimentos do mundo, uma jovem oriental pintava uma aguarela. Ia mergulhando o pincel numa garrafa com água. Ela não estava ali: gravitava, ausente, numa zona sem fundo, imaterial, a sombra das suas costas caída contra o vidro do café.

Estávamos no intervalo.

«Vai ler poesia?», perguntei à minha interlocutora.

«Sim. Mas decidi não ler o poema que trouxe de casa. Gosto mais deste que escrevi mesmo aqui.»

À minha frente, pois, tinha alguém que ia ler um poema escrito no colo. O acto da escrita tinha uma certa originalidade. Valeria a pena ficar por isso?

De quinze em quinze dias, às segundas-feiras, Phil Ranson, poeta local, junta, num café-livraria em Maple Ridge, um pequeno grupo de amantes da poesia. O espaço é reduzido e sem grandes atractivos. Por trás do balcão o empregado (ou o dono) serve cafés e chás. Phil tem sempre um autor convidado. Metade do tempo pertence a este. A outra é preenchida com a intervenção daqueles que, na audiência, vêm preparados para ler poemas da sua autoria. Nessa noite, Kyle Mckillop, um jovem professor, tinha sido a figura principal do evento. Leu devagar, satisfeito por estar ali, uma poesia com o rumor do quotidiano, entre ironia e autoanálise. Gostei.

Mas nem tudo o que se ouve é poesia. Parecem-me desabafos melancólicos de alguma solidão, de algum sentimentalismo. São uma espécie de exegese de elementos pessoais, e que deviam ser exorcizados num ciclo íntimo, como seja através de um telefonema a alguém interessado em ouvi-los.

Esta iniciativa, porém, e como outras similares, enternece-me. Vivemos num mundo parado no vazio e que nos faz correr de um lado para o outro em caixas de metal (os carros), poluído de gases e ruído. Vamos no sentido oposto à nossa natureza. Deslocamo-nos não em prados verdejantes mas em caminhos de asfalto e com um polícia ao fundo. Enfrentamos com letargia a febre da rotina porque sabemos que avançamos por uma estrada com sinais vermelhos e num presídio com rodas. O nosso olhar é uma ponte sem regresso perante o outro, fechado que está na sisudez de um dia amargo, agarrado ao volante de mitos obscuros como se pudesse, como num acto mágico, controlar o seu próprio destino. Vivemos entre a manipulação da imagem, o culto e o paroxismo do ego, desumanizados, carentes, na solidão das redes sociais em busca de um suspiro empático. Somos escravos da nossa ânsia desenfreada pelo imediato, da aprovação dos outros, do que produzimos para consumo dos “likes” efémeros, do estatuto social, esquecendo-nos de que temos de enfrentar com furor a corja que nos tira a liberdade e o direito a sermos felizes e solidários num mundo dominado por sanguinários. É como oposição a tudo isso que me vejo a sair de casa, numa segunda-feira, para ouvir poesia, sabendo de antemão que nem tudo o que aparece é de boa qualidade. Mas pelo menos tenho opções, como sair, por exemplo. E no entanto, pior do que ouvir um mau poema é ter de enfrentar o discurso mentiroso de um político desonesto.