Uma mão no mundo de Idi Amin

Idi Amin, o cágado, tem a postura sonolenta das pedras. Quando olha, observa tudo com o candor maravilhado de um romântico. Não pestaneja. Na verdade, o seu olhar melado não agride: denota calma, segurança, paciência e bonomia.

São lentos e graciosos os seus movimentos. Parecem vir de uma zona de harmonia muito rara nos humanos. No tanque, um quadrado onde passou de menino a adulto e agora envelhece com a paciência de um sonhador sem fronteiras, nada como uma bailarina já no crepúsculo da carreira, lentamente, perto da janela da sala de visitas.

Em Agosto, quando a luz fere a pele como a chama de um fósforo, Idi Amin arrasta-se pela rampa, escorrendo água e silêncio da sua carapaça, e deixa-se ficar muito quieto, meio adormecido, pestanejando como uma criança perante a alta e muito branca luz do mar.

E, no entanto, sob aquela áurea de bonomia e quietude esconde-se um inexorável e agressivo feitio.

Diana cuida dele quando Mito, o filho, se ausenta de casa. O afecto que foi desenvolvendo pelo bicho não foi espontâneo. Aprendeu a gostar dele, e muito lentamente. Um cágado, por muito inofensivo e frágil de aspecto, nunca foi para Diana um animal doméstico. Era um ponto escuro e estático abandonado numa lagoa. A inércia, a lentidão, aquele olhar enevoado e sombrio, se não lhe instigavam sentimentos de repulsa pelo menos deixavam-na com a sensação de estar perante algo feio e que lhe sugeria a pouco agradável imagem de um excremento de vaca com patas. Mas o carinho e a atenção que o filho dedicava ao pequeno Idi Amin acabaram por contagiá-la.

Mito, aproveitando um feriado que lhe prolongou o fim-de-semana, meteu-se na carrinha e desapareceu por três dias. Diana, contrariada, entrou ao serviço como ama-seca de Idi Amin.

Ocupada com o pó da casa, os vestígios de sapatos descuidados na carpete, a loiça, as panelas ao lume, Diana desceu, afogueada e preocupada, aos aposentos do filho. Que descuidado!, pensou ao reparar na água turva do tanque onde o ditador, não o africano que esse já morreu há muitos anos, piscava os olhos com a repentina luz do tecto. Diana poisou o frasco com a comida. Precisava de uma estratégia para retirar o cágado. Algo lhe dizia para tomar cuidado. Não teve, porém, as precauções que Mito lhe recomendara antes de sair e avançou a mão descuidada pela água adentro.

Apareceu um clarão dentro do pequeno cérebro de Idi Amin. Todo o seu corpo ficou tomado por uma descarga eléctrica. Agitou as patas de ancião ocioso. Os seus membros denunciaram um pequeno sinal de vida que fez apenas dançar, sobre a sua couraça, uma minúscula bolha de oxigénio. Abriu os olhos com o espanto todo de um ser perante a morte. Defendeu-se então com as mandíbulas, agastado com aquela mão que, atrevida e insensata, invadira o seu espaço.

Diana deu um grito e proferiu uma imprecação. Sacudiu o indicador direito com veemência. Enfrentou uma dor tão grande, tão aguda, que a estonteou. A violência do golpe atingiu-lhe a carne e a alma. Foi como se tivesse sido agredida por um objecto contundente. Puxou o cágado para fora da água mas não conseguiu que o bicho lhe soltasse o dedo. Gritou-lhe, chamou-lhe nomes feios, horríveis. Bateu com ele no chão. Idi Amin recusava-se a capitular.

Foi nesse momento que Diana compreendeu que o cágado a odiava. Que raios! A sua agressividade só era paralela à dos humanos — feroz e irremediável. Irreprimível.

Seria Idi Amin uma reencarnação maligna? Em questão de segundos passou-lhe pela mente inúmeros cenários, incontáveis conjecturas. Atravessou a sala numa corrida, subiu as escadas, e dirigiu-se por fim à cozinha o mais rapidamente que o seu corpo pesado lhe permitia.

Quando Mito regressou a casa, Diana esperava o filho sentada no sofá da sala. Uma grossa ligadura envolvia-lhe o indicador direito.

«Que aconteceu?» perguntou Mito, aludindo ao ferimento.

Diana encolheu os ombros.

«Não foi nada. Cortei-me com uma faca. Daqui a dias está bom. O pior não foi isso mas o Idi Amin. E o que tenho a dizer-te não é muito agradável…»

Mito poisou a mochila no chão. Tinha um ar cansado, o rosto escurecido com a barba de três dias.

«Idi Amin está enterrado no quintal. Não sei o que lhe aconteceu. Encontrei-o ontem no fundo do tanque já sem vida. Coitado: se há eternidade para os animais, ele foi por ela adentro sem dar pela transição. Tinha os olhos fechados como se estivesse a dormir profundamente».

 

 

Eduardo Bettencourt Pinto
Lugar dos Áceres, British Columbia

30/11/2015

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Um pensamento sobre “Uma mão no mundo de Idi Amin

  1. Dizem que a alma penada do falecido ditador africano é… um cágado. Só não esperava é que ele, mesmo sendo só alma, preferisse andar por este mundo logo aí, no norte do Canadá, onde me dizes que faz tanto frio. Quem diria que o antigo sargento das forças coloniais britânicas no Uganda, depois famoso ditador deste país independente, acabaria de alma a penar-se aí por essas bandas! Mas no fundo, no fundo, percebe-se. Afinal o Canadá também foi possessão dos mesmos donos. Num e outro lado se fala um bom inglês. E deve ser adorável ouvir um cágado a falar inglês e a beber chá pelas cinco da tarde. Só não achei muita graça que tivesse a mania, pouco saudável, de fazer de uma banheira sua casa. Claro que só poderia dar no que deu! Mexeram com ele (ou melhor, mexeram nele) e aconteceu o previsível. Foi sempre assim o Amin que lhe emprestou o corpanzil enquanto vivo. A reacção era a mesma. Trucidar a mão que fosse em sua direcção, mesmo que por bons motivos. Tanto fazia. Bastava ser uma mão para ser mordida. Em resumo: tal homem vivo, tal alma penada, mesmo que na forma de um cágado com a “postura sonolenta das pedras”.

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