Mês: Março 2016

Uma casa no meio do mar

casa_e_marOs cães começaram a ladrar mal ouviram os meus passos no corredor. Eram três cadelinhas, pêlo curto, olhar sombrio e assustado. Às sete e meia da manhã ainda estava escuro. A casa dormia, pelo menos até àquele momento em que fizeram soar o alarme.

Para alcançar o quarto de banho tinha de passar por elas, na cozinha. Invadi-lhes o espaço, os restos da noite e o sono. Erguidas dos seus leitos com veemência plástica, foram recuando à minha passagem de olhos cintilantes. Aflito e estarrecido, tentava acalmá-las. Esforço estéril. Com um clamor daqueles, até um urso despertaria da sua profunda hibernação.

Fechei-me na casa de banho. Cada movimento meu, por mais cauteloso, despoletava um novo chorrilho de protestos: a leveza de um passo, um inaudível pingo da torneira, a sombra da mão na toalha de rosto. Muito simplesmente, elas protestavam por qualquer e ininteligível som que eu, por muito cauteloso que fosse, produzia do outro lado da porta. Mesmo que levitasse, estou certo de que a sua apuradíssima audição encontraria, entre os meus passos e o chão, um ressoo ameaçador.

Como dizia o meu pai, eram “feras mansas”. Mas a verdade é que a acústica da cozinha permitia um efeito redobrado e demolidor em estereofónico, cuja polifonia repercutia, qual descarga eléctrica, das paredes às fundações. Não havia remédio para tão inflamado assalto. Deixei-me levar, enfim, pela agitada corrente daquelas águas sonoras. Combatê-las seria prolongar a agitação canina numa hora em que a casa, às escuras como a maioria da cidade de Ponta Delgada, revolvia-se ainda no deleite e na mornidão dos seus lençóis.

Já no resguardo do meu quarto, e sob a ténue luz do candeeiro, sentei-me a ler. Tinha comprado na véspera a reedição do livro Amores da Cadela “Pura”, de Margarida Vitória (Marquesa de Jácome Correia), que reunia dois volumes sob o mesmo título.

Nascida em Ponta Delgada em 1919 num berço da aristocracia açoriana, foi uma mulher belíssima e muito elegante. Mercê de uma vivência cosmopolita e muito liberal para a sua época, experimentou uma vida de privilégios, solidão e amores intensos. Foi conhecida, por exemplo, a sua ligação amorosa a Vitorino Nemésio. Pormenor circunstancial, acrescento. Em assuntos de amor só este se deve pronunciar.

Fui lendo devagar e descobrindo os meandros emocionais e afectivos de uma vida singular.

Quando o pousei, assaltou-me a impressão que sempre tive em relação ao título: não gosto, nunca gostei. Faz sugerir uma leitura brejeira sobre uma pessoa banal e vulgar. O que não é o caso.

Entretanto amanheceu. A casa silenciosa como um templo secular. Fui à janela. Ouvi passos na rua, aproximando-se. Um homem passou, rua abaixo, pisando a frágil luz matinal.

A casa da minha tribo onde agora vive o Carlos, o meu irmão caçula. Quantas gerações do meu sangue passaram por ali? Emociona-me aquele espaço. Há vozes no silêncio das suas paredes, a incólume vertigem do tempo. Passei dois anos e meio da minha infância naquela casa, vindo de África. Como se parte de um tempo que está sempre connosco, quando a memória, como um membro do nosso corpo, nos acompanha para todo o lado?

Vesti-me, peguei na máquina fotográfica e saí.

Ponta Delgada é a cidade mais antiga da minha vida. Aspirei, enlevado, o ar fresco da manhã. Dois sujeitos, o mais novo com ar bonacheirão, aspirou o cigarro e interceptou-me, muito solto a expelir o fumo:

— Bela máquina! O senhor importa-se de nos tirar uma fotografia?

Sentou-se ao lado do amigo no degrau da casa e registei o momento.

Disse-lhes que podiam ver a fotografia na página da Olhares, na Internet.

Ao fim da rua, voltei à esquerda e fui em direcção ao cais. Nuvens brancas e cinzentas desenhavam no céu uma imagem impressionista. Dirigi-me a um pequeno grupo de indivíduos agarrados a canas de pesca. Era muito cedo, suponho, ou tinham apenas temperamento carrancudo. Fui-me embora. Aproveitei a silhueta deles e fiz um registo fotográfico.

Chegaram duas traineiras e fui observá-las. Pessoal irascível, os pescadores. O cansaço da faina nocturna, a impaciência.

Meti-me em direcção ao Campo de S. Francisco. Oiço, quando por lá passo, a voz de minha avó Irene entre os pombos que tristes poisam no banco de Antero de Quental.

Pode ser apenas impressão minha, claro. Mas é assim que vejo as coisas.

/Eduardo Bettencourt Pinto

Noite

victorhuho
Victor Hugo

Quantas vezes a noite é uma sombra hostil dentro da cabeça? Enfrento isto com frequência. Deito-me com a letargia psicológica de quem se dirige a uma ponte no escuro. Fecho os olhos. Uma nuvem abstracta paira sobre mim, circula o meu corpo como uma ave de rapina. É a escuridão, extasiada e silenciosa, o estranho rumor de um deserto inominável. Afundo-me nas suas águas, vulnerável e incógnito.  Assim permaneço, num espaço sem memória, sustentado pela surpreendente imaginação do subconsciente.

Levanto-me três, quatro horas depois sob a implacável vigilância do despertador. Sinto-me defraudado, confuso como aquele que, às cegas, avança pela impenetrável escuridão de um túnel. Reajo lentamente ao toque sinistro. Apalpo o interruptor do candeeiro, uma, duas vezes. Por fim a luz devolve-me os contornos do mundo real.

Tenho a sensação angustiante de sentir os membros colados. Arrasto-me pelo quarto com a letargia de um proscrito. Persegue-me, quase sempre, a vontade de regressar ao sono, interrompido à uma da manhã. Mas a resiliência triunfa. A abnegação ao trabalho e o sentido de responsabilidade prevalecem. Minutos depois estou na rua em direcção ao carro.

Se é uma noite de luar, e limpa de nuvens, vejo, por entre os ramos dos áceres, cisnes de prata. Seguem em fila, muito alto, numa cadência vagarosa como se nadassem pela noite fora. Arrastam, nas patas cintilantes,  os mais inesperados percursos do sonho. É um quadro de Renoir a preto e branco. Também pode ser, com a sua poderosa luminosidade, o rasgo semântico de uma pincela de Matisse, algo secreto, intensamente vivo, que me surpreende e enleva. É uma tela, um instantâneo onírico. E alegra-me a sua beleza, o seu mistério.

 

Lugar dos Áceres, Março 2016
Eduardo Bettencourt Pinto