Noite

victorhuho
Victor Hugo

Quantas vezes a noite é uma sombra hostil dentro da cabeça? Enfrento isto com frequência. Deito-me com a letargia psicológica de quem se dirige a uma ponte no escuro. Fecho os olhos. Uma nuvem abstracta paira sobre mim, circula o meu corpo como uma ave de rapina. É a escuridão, extasiada e silenciosa, o estranho rumor de um deserto inominável. Afundo-me nas suas águas, vulnerável e incógnito.  Assim permaneço, num espaço sem memória, sustentado pela surpreendente imaginação do subconsciente.

Levanto-me três, quatro horas depois sob a implacável vigilância do despertador. Sinto-me defraudado, confuso como aquele que, às cegas, avança pela impenetrável escuridão de um túnel. Reajo lentamente ao toque sinistro. Apalpo o interruptor do candeeiro, uma, duas vezes. Por fim a luz devolve-me os contornos do mundo real.

Tenho a sensação angustiante de sentir os membros colados. Arrasto-me pelo quarto com a letargia de um proscrito. Persegue-me, quase sempre, a vontade de regressar ao sono, interrompido à uma da manhã. Mas a resiliência triunfa. A abnegação ao trabalho e o sentido de responsabilidade prevalecem. Minutos depois estou na rua em direcção ao carro.

Se é uma noite de luar, e limpa de nuvens, vejo, por entre os ramos dos áceres, cisnes de prata. Seguem em fila, muito alto, numa cadência vagarosa como se nadassem pela noite fora. Arrastam, nas patas cintilantes,  os mais inesperados percursos do sonho. É um quadro de Renoir a preto e branco. Também pode ser, com a sua poderosa luminosidade, o rasgo semântico de uma pincela de Matisse, algo secreto, intensamente vivo, que me surpreende e enleva. É uma tela, um instantâneo onírico. E alegra-me a sua beleza, o seu mistério.

 

Lugar dos Áceres, Março 2016
Eduardo Bettencourt Pinto

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2 pensamentos sobre “Noite

  1. Este texto transmite-nos uma realidade que conheco e estou certa Muitos de nos conhecemos. Noite a de insonias e desvarios sao tambem parte da Minha vida e o modo como usas as palavras para descrever Esse estado de alma e extraordinario. Um grande abraco.

  2. A noite procura-me e eu escondo-me
    entre ábacos de ébano e marfim. Um velho
    chinês procura-me com dedos de bambu
    entre as pedras de contar. Escurece o dia
    e eu adormeço numa esteira de estrelas
    do mar.
    JArr

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