Uma casa no meio do mar

casa_e_marOs cães começaram a ladrar mal ouviram os meus passos no corredor. Eram três cadelinhas, pêlo curto, olhar sombrio e assustado. Às sete e meia da manhã ainda estava escuro. A casa dormia, pelo menos até àquele momento em que fizeram soar o alarme.

Para alcançar o quarto de banho tinha de passar por elas, na cozinha. Invadi-lhes o espaço, os restos da noite e o sono. Erguidas dos seus leitos com veemência plástica, foram recuando à minha passagem de olhos cintilantes. Aflito e estarrecido, tentava acalmá-las. Esforço estéril. Com um clamor daqueles, até um urso despertaria da sua profunda hibernação.

Fechei-me na casa de banho. Cada movimento meu, por mais cauteloso, despoletava um novo chorrilho de protestos: a leveza de um passo, um inaudível pingo da torneira, a sombra da mão na toalha de rosto. Muito simplesmente, elas protestavam por qualquer e ininteligível som que eu, por muito cauteloso que fosse, produzia do outro lado da porta. Mesmo que levitasse, estou certo de que a sua apuradíssima audição encontraria, entre os meus passos e o chão, um ressoo ameaçador.

Como dizia o meu pai, eram “feras mansas”. Mas a verdade é que a acústica da cozinha permitia um efeito redobrado e demolidor em estereofónico, cuja polifonia repercutia, qual descarga eléctrica, das paredes às fundações. Não havia remédio para tão inflamado assalto. Deixei-me levar, enfim, pela agitada corrente daquelas águas sonoras. Combatê-las seria prolongar a agitação canina numa hora em que a casa, às escuras como a maioria da cidade de Ponta Delgada, revolvia-se ainda no deleite e na mornidão dos seus lençóis.

Já no resguardo do meu quarto, e sob a ténue luz do candeeiro, sentei-me a ler. Tinha comprado na véspera a reedição do livro Amores da Cadela “Pura”, de Margarida Vitória (Marquesa de Jácome Correia), que reunia dois volumes sob o mesmo título.

Nascida em Ponta Delgada em 1919 num berço da aristocracia açoriana, foi uma mulher belíssima e muito elegante. Mercê de uma vivência cosmopolita e muito liberal para a sua época, experimentou uma vida de privilégios, solidão e amores intensos. Foi conhecida, por exemplo, a sua ligação amorosa a Vitorino Nemésio. Pormenor circunstancial, acrescento. Em assuntos de amor só este se deve pronunciar.

Fui lendo devagar e descobrindo os meandros emocionais e afectivos de uma vida singular.

Quando o pousei, assaltou-me a impressão que sempre tive em relação ao título: não gosto, nunca gostei. Faz sugerir uma leitura brejeira sobre uma pessoa banal e vulgar. O que não é o caso.

Entretanto amanheceu. A casa silenciosa como um templo secular. Fui à janela. Ouvi passos na rua, aproximando-se. Um homem passou, rua abaixo, pisando a frágil luz matinal.

A casa da minha tribo onde agora vive o Carlos, o meu irmão caçula. Quantas gerações do meu sangue passaram por ali? Emociona-me aquele espaço. Há vozes no silêncio das suas paredes, a incólume vertigem do tempo. Passei dois anos e meio da minha infância naquela casa, vindo de África. Como se parte de um tempo que está sempre connosco, quando a memória, como um membro do nosso corpo, nos acompanha para todo o lado?

Vesti-me, peguei na máquina fotográfica e saí.

Ponta Delgada é a cidade mais antiga da minha vida. Aspirei, enlevado, o ar fresco da manhã. Dois sujeitos, o mais novo com ar bonacheirão, aspirou o cigarro e interceptou-me, muito solto a expelir o fumo:

— Bela máquina! O senhor importa-se de nos tirar uma fotografia?

Sentou-se ao lado do amigo no degrau da casa e registei o momento.

Disse-lhes que podiam ver a fotografia na página da Olhares, na Internet.

Ao fim da rua, voltei à esquerda e fui em direcção ao cais. Nuvens brancas e cinzentas desenhavam no céu uma imagem impressionista. Dirigi-me a um pequeno grupo de indivíduos agarrados a canas de pesca. Era muito cedo, suponho, ou tinham apenas temperamento carrancudo. Fui-me embora. Aproveitei a silhueta deles e fiz um registo fotográfico.

Chegaram duas traineiras e fui observá-las. Pessoal irascível, os pescadores. O cansaço da faina nocturna, a impaciência.

Meti-me em direcção ao Campo de S. Francisco. Oiço, quando por lá passo, a voz de minha avó Irene entre os pombos que tristes poisam no banco de Antero de Quental.

Pode ser apenas impressão minha, claro. Mas é assim que vejo as coisas.

/Eduardo Bettencourt Pinto

Anúncios

Um pensamento sobre “Uma casa no meio do mar

  1. A Cadela Pura

    Cheguei a S. Miguel com os ventos frios e húmidos de janeiro, faz quarenta anos, quando a ilha era só água. A chuva que caía fazia da terra mais uma onda, mais uma vaga.

    Fiquei hospedado nas águas furtadas de dona Maria, uma casa antiga na rua do Saco. A sua residente mais apaparicada e, ao mesmo tempo, mais resmungona era a cadela Milú, tão bravia como as três de “pelo curto e olhar sombrio” que te alarmavam a casa da Vila Nova. A cadela de dona Maria não admitia confianças a nenhum estranho. Na primeira manhã do primeiro dia como habitante daquela casa, passei por momentos difíceis. Quando consegui atravessar o corredor, pé-ante-pé para a Milú não dar por mim, mal chegado à casa de banho atirei-me lá para dentro como um náufrago se atira a um salva vidas. Mas não demoraria a perceber que, salvo dos dentes afiados da Milú, tinha-me trancado numa casa de banho para morrer. A cadela, cujo instinto lhe garantia que, naquele lugar, qualquer estranho poderia encontrar um final pouco feliz, ficou silenciosa. Eu estranhei. Despi-me e, feliz pelo banho retemperador que me aguardava, liguei o esquentador e abri a água. Tudo corria bem, até começar a sentir que o velho esquentador, que resistia há décadas por cima da banheira de dona Maria, não só aquecia a água como envenenava o ar.

    No palácio de Santa Luzia, Margarida Jácome Correia mergulha numa funda banheira de mármore polido, enquanto duas criadas a ajudam, com extrema delicadeza, a tomar banho. Da água elevam-se nuvens de vapor perfumado e inebriante. Próxima da grande banheira, uma cadela dormita com as patinhas fofas sobre dois livros, ou melhor, sobre dois volumes de um livro só “Os Amores de uma Cadela Pura”.

    Ainda na banheira de esmalte maltratado, começo a sentir a cabeça às voltas. Incomodado, acho que será mais seguro sair dali o mais depressa possível. Lá fora, a cadela começa a latir e a arranhar a porta.
    Maldita cadela!, digo alto. E começo a ter alucinações, a perder a orientação. Os latidos da cadela estão cada vez mais dentro da minha cabeça, como se a própria Milú habitasse nela.

    Margarida pede a uma das empregadas que lhe traga a toalha e enrola-se nela. Já não é nova, mas o seu corpo ainda guarda alguma da grande beleza que tinha tido.
    Pura, pura, vem cá! Vem cá, meu bichinho.
    Ao ouvir o seu nome, a cadela salta-lhe para o colo onde é afagada com meiguice. Margarida dispensa o apoio das suas empregadas e começa a vestir-se. Teria um convidado especial nesse dia. Um poeta oriundo da ilha Terceira. Um amor de poeta.

    Não cantarei a virgem que o cavalo
    Com um xairel de sangue arrebatou,
    Quebrada pelo bruto, nem levá-Io
    Ao potro vingador de um verso vou.

    Não cantarei tal noite aziaga. Falo
    Apenas do que tenho, do que sou
    Com ela, como o vinho no gargalo
    Do frasco em que me bebe e me esgotou.

    Nem cantarei a vítima do resto,
    Violada na inocência que perdeu
    Nas emboscadas de um punício lodo:

    Que só meu próprio amor acendo. E atesto
    A chama da Victória que me deu
    Na margarida branca o mundo todo.
    (V.N.)

    Estonteado, consigo chegar à porta e empurro-a com a força que ainda me resta. A cadela, entalada contra a parede, põe-se a ganir. Caio, bato com a cabeça num vaso de flores e desmaio. Quando acordo, a cadela lambe-me a cara. Afasto-a devagar e levanto-me a custo. Após algum descanso, saio para dar uma volta pela cidade. Preciso de ar puro.

    1976. Ponta delgada é a minha cidade mais recente. Sinto com agrado o ar fresco e húmido tocar-me o rosto. Desço até ao Largo 2 de Março e não encontro o Sr. Raúl, com “a mão direita ao alto, branca como uma asa de gaivota”, como o vê o meu amigo Eduardo. Mas cumprimento o Sr. Raposo, que, da porta da Farmácia onde trabalha, observa tudo.
    No “Gil” tomo o pequeno-almoço e sinto a as forças a regressarem aos poucos. Mais uns passos e, na Tabacaria Açoriana, chama-me a atenção um livro com um título curioso, talvez provocador, “Os Amores de uma Cadela Pura”, de Margarida Vitória. Compro-o e levo-o comigo.
    No Campo de S. Francisco aproximo-me do banco de Antero, onde moram alguns pombos, e sento-me entre eles. São tristes os pombos, como se tivessem assistido ao disparar da pistola sobre a têmpora do poeta.
    Naquele lugar não sinto vontade de ler o livro que comprei. Fá-lo-ei quando chegar a casa, se a cadela me deixar entrar…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s