Mês: Junho 2016

José dos Montes

INVERNO -1
 

Fotografia: Eduardo Bettencourt Pinto

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Tem a fúria do fim da idade. Os seus olhos piscam, pouco vêem. Conseguem, talvez, distinguir a sombra de cada forma que observa, o que resta de um gesto, de uma expressão. O bordão, no qual se apoia, é uma espada, uma perna implacável e dura, o coice e o golpe que surpreendem o mundo. Fala da morte como se fosse uma espécie de vida. Das árvores, porém, guarda as achas de um amor infeliz.

Perdeu-se no tempo a amar a terra com as mãos. Dedicou-lhe o outono da sua vida e toda a luz dos seus olhos. São ásperas agora as suas palavras, instâncias peregrinas do ódio de um homem que as atira ao ar quando a lâmina da efemeridade lhe atravessa, implacável, o coração.

José dos Montes, que acordava com os galos e o rumor bom de uma brisa macia nas oliveiras do quintal, levanta-se agora do seu leito com a melancolia e a solidão do proscrito, consciente do seu degredo. O seu corpo tornou-se uma prisão. Não se consegue evadir. Altos são os muros, inquebráveis as grades das suas noites. Os pensamentos, que foram águias soltas pelos campos, regressaram, vencidas, aos seus ninhos.

José habita a casa como um reduto, como se mil pombas de susto levantassem voo com a sua presença. Atravessa-a todos os dias com a cautela de quem se aventura numa floresta pela primeira vez. Assalta-o o medo dos seus próprios fantasmas, a lembrança de um rosto que o ajudou a construir o mundo, o sorriso cheio de juventude reflectido, feliz, nos vidros da janela. Quando se afasta para o quintal, leva nos passos arrastados uma casa em ruínas.

Os dias crescem, banham as suas costas, curvadas sob os lampejos do Verão. Há um brilho triste no seu corpo frágil e vulnerável, e no jeito como se entrega ao grande vazio da sua alma. Varre a entrada da casa com o vagar de um suspiro. Sabe, no mais fundo de si, que o tempo o traiu: levou-lhe o vigor do corpo, a firmeza dos braços, o orgulho de se olhar ao espelho e ver um homem de pé com todo o gáudio da sua estirpe. Varre adiante de si, com uma enorme vassoura de giesta, os minutos e os segundos dos seus dias. Entra a noite e ele continua a limpar o silêncio que o enreda da cabeça aos pés. Às vezes pensa, aflito, que a eternidade é esse jogo de braços a que se entrega todos os dias, o atirar para trás de si o pó da memória, às vezes tão pesado como um sonho desfeito.

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Estrada

varandaViajo de autocarro enquanto a tarde, sob uma luz doirada e fulminante, vai, lentamente, perdendo o seu fulgor na paisagem. Ficam para trás casas tristes no lado esquerdo da estrada, e de cunho austero, cuja antiguidade lhes dá um ar solene e tranquilo; do lado direito, um horizonte de terra seca. Nuvens escuras ameaçam a claridade que resta do azul. Parecem correr em direcção a uma árvore solitária.

Oiço o autocarro rolar na estrada. Uma águia de sombras pontifica nas alturas. Vou para o Norte. O sol que trago do Sul vai-se apagando entre as vírgulas do caderno onde escrevo. Aos poucos a noite veste-se de nudez. Por fim, morrem as palavras, mudas de tanta escuridão. Fica o silêncio, o seu rosto sem forma caído entre as minhas mãos.