José dos Montes

INVERNO -1
 

Fotografia: Eduardo Bettencourt Pinto

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Tem a fúria do fim da idade. Os seus olhos piscam, pouco vêem. Conseguem, talvez, distinguir a sombra de cada forma que observa, o que resta de um gesto, de uma expressão. O bordão, no qual se apoia, é uma espada, uma perna implacável e dura, o coice e o golpe que surpreendem o mundo. Fala da morte como se fosse uma espécie de vida. Das árvores, porém, guarda as achas de um amor infeliz.

Perdeu-se no tempo a amar a terra com as mãos. Dedicou-lhe o outono da sua vida e toda a luz dos seus olhos. São ásperas agora as suas palavras, instâncias peregrinas do ódio de um homem que as atira ao ar quando a lâmina da efemeridade lhe atravessa, implacável, o coração.

José dos Montes, que acordava com os galos e o rumor bom de uma brisa macia nas oliveiras do quintal, levanta-se agora do seu leito com a melancolia e a solidão do proscrito, consciente do seu degredo. O seu corpo tornou-se uma prisão. Não se consegue evadir. Altos são os muros, inquebráveis as grades das suas noites. Os pensamentos, que foram águias soltas pelos campos, regressaram, vencidas, aos seus ninhos.

José habita a casa como um reduto, como se mil pombas de susto levantassem voo com a sua presença. Atravessa-a todos os dias com a cautela de quem se aventura numa floresta pela primeira vez. Assalta-o o medo dos seus próprios fantasmas, a lembrança de um rosto que o ajudou a construir o mundo, o sorriso cheio de juventude reflectido, feliz, nos vidros da janela. Quando se afasta para o quintal, leva nos passos arrastados uma casa em ruínas.

Os dias crescem, banham as suas costas, curvadas sob os lampejos do Verão. Há um brilho triste no seu corpo frágil e vulnerável, e no jeito como se entrega ao grande vazio da sua alma. Varre a entrada da casa com o vagar de um suspiro. Sabe, no mais fundo de si, que o tempo o traiu: levou-lhe o vigor do corpo, a firmeza dos braços, o orgulho de se olhar ao espelho e ver um homem de pé com todo o gáudio da sua estirpe. Varre adiante de si, com uma enorme vassoura de giesta, os minutos e os segundos dos seus dias. Entra a noite e ele continua a limpar o silêncio que o enreda da cabeça aos pés. Às vezes pensa, aflito, que a eternidade é esse jogo de braços a que se entrega todos os dias, o atirar para trás de si o pó da memória, às vezes tão pesado como um sonho desfeito.

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4 pensamentos sobre “José dos Montes

  1. Li o teu texto crepuscular, sobre o homem (todos os homens) que nos habita como se um reduto fossemos, uma torre de menagem sobre o último combate, ou um jardim de oliveiras à sombra das quais nos preparássemos para o sacrifício final.

    Senti-me oscilante sobre os pés desse ser, de raízes soltas na terra árida, guardando lembranças esquivas e fome do pão juvenil. Tentei afastá-lo do casebre que o aprisiona mais do que guarda, mas dele soltaram-se “mil pombas de susto” sobre cada passo meu. E à medida que o reflexo de mim nas vidraças das janelas ia sendo mais intenso, mais as grilhetas do medo o retinham em casa. Cá fora, uma nuvem de penas pairava sobre a solidão do lugar. Afastando-me, conseguia ver reflectida uma sombra alongada e triste, curvada sob o peso de um xaile de pedras… Continuei a percorrer aquele lugar, satisfazendo-me com os vagos reflexos da sua juventude nas vidraças da minha memória.

    Dizes que ele, o homem da montanha (todos os homens), tem “a fúria do fim da idade”, a cólera do ocaso. Afinal, essa fúria é o que lhe resta do que falta, um rasgão de luz na pele gasta e opaca do tempo. Por isso lhe descobriste a nobreza de uma espada sob a simplicidade dum bordão, uma perna aos coices na indiferença do mundo.

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