Mês: Outubro 2016

A importância de ser importante

“Long ago one of the Cynic philosophers strutted through the streets of Athens in a torn mantle to make himself admired by everyone by displaying his contempt for convention. One day Socrates met him and said: ‘I see your vanity through the hole in your mantle.’ Your dirt too, sir, is vanity, and your vanity is dirty.”
― Milan Kundera, Farewell Waltz

/Eduardo Bettencourt Pinto
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A vaidade está mais próxima do ridículo do que o riso do humor. Em certas situações, porém, juntam-se estas quatro variantes.

«Aldrubias», por exemplo, era um rapazote luandense muito pedante cujas idiossincrasias passavam por várias metamorfoses. Mudava segundo as circunstâncias sociais, dominado pelo ambiente. Na escola actuava de uma certa maneira. Na praia ou na rua, de outra. Do seu comportamento em casa, convenhamos, não havia informações. Circulavam umas nuvenzitas pouco sólidas, mais especulativas do que reais.

Podíamos considerá-lo um camaleão. E, nessa qualidade, as suas cores preferidas eram o amarelo e o vermelho. Davam mais nas vistas.

Atirava as pernas para a frente num passo de general convicto, intangível, queixo levantado, as bainhas das calças de boca-de-sino num baile frenético sobre os sapatos pontiagudos, costas erectas, garbosas, cabelo escuro, tão bem tratado que parecia uma permanente copiada a uma tia velhinha. As meninas suspiravam, nervosas, à sua passagem. Os rapazes odiavam-no com o cinismo do sorriso despeitado e palmadinhas de Judas nas costas. Ninguém, nem mesmo os professores, gozavam de tanto prestígio. Nos corredores, ao cruzarem-se com ele, desviavam-se. Nas aulas, intimidados pela sua auréola, evitavam questionar-lhe a inteligência perante os outros. No fundo, «Aldrubias» comandava as tropas como queria, vergadas sob o peso da sua enorme superioridade. Com as suas lendárias histórias de grandeza, não mentia, manipulava a verdade.

Podia ter sido modelo, é claro. Tinha estampa, garbo, altura. O sexo oposto considerava-o bonito, uma brasa, um borracho, um pão como dizem os brasileiros. O que abalou a sua reputação? A inabilidade em manter o protagonismo intocável, vivo, interessante? Ou o absurdo da sua condição de mentiroso para se engrandecer perante os outros?

«Aldrubias» chegava à escola num Mercedes preto. Antes de fechar a porta, olhava em redor. Se via alguém, bradava para o motorista as horas a que este o devia ir buscar. O carro desaparecia, lento, na estrada. Sem olhar para trás, sem um aceno de despedida, «Aldrubias» dirigia-se para o edifício da escola com a altivez de quem ocupava um cargo importante.

Este cenário durou algum tempo. Um dia, porém, o seu firmamento foi posto em causa pelo tom exagerado com que gritou as ordens do costume. O motorista, apercebendo-se do logro de que estava a ser vítima, atirou o chapéu com veemência para o tablier e saiu do carro. Ordenou-lhe que esperasse.

Era um sujeito de estatura média, calças pretas e camisa branca em cujo peito ondeava, sob a claridade matinal, a timidez de uma gravata preta. Parecia uma tempestade de areia. Os seus pés não pisavam o chão, espetavam a terra como as esporas de um galo de combate. Vinha investido de uma energia eléctrica tal que o seu o rosto se tornou incandescente. «Aldrúbias», assustado, deixou cair a pasta com os livros. Nunca vira o pai assim.

Ainda levantou o braço para se defender mas foi logo sacudido por duas violentas bofetadas, tão sonoras que deitaram por terra a sua reputação de menino rico com chauffeur privado.

– Daqui por diante andas a pé, seu palerma!

Mesmo perante aquela humilhação, «Aldrúbias» não podia arrastar-se na penumbra como uma osga assustada. Recolheu os livros e assoprou o pó mal o carro se pôs em movimento. Sentia as faces quentes e o orgulho assaltado por uma grande afronta. Felizmente só as duas raparigas tinham assistido à cena. Seria fácil arranjar uma explicação. Poderia dizer-lhes, por exemplo, que se incompatibilizara com o motorista por uma questão de saias, e que o tinha despedido. Daí a confrontação. Era importante naquele momento recuperar a compostura. Isso sim. Quanto ao pai, ver-se-ia depois. Fintava sempre o velho com uma pinta extraordinária.

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A genética de um carteirista

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Foto:Eduardo B. Pinto

/Eduardo Bettencourt Pinto

Abril? Maio? O mês é irrelevante. A luz de Lisboa é quase a mesma, branca, macia, aveludada. Quando desce, porém, pelo fulgor da manhã, parece um sussurro de amor, uma pomba em pleno voo. Espalha–se pela cidade como uma chuva de cristais, arrastando consigo um breve, fino odor a limão. É nesta luz que os poetas soltam as suas aves mais íntimas.

Mas os seres não habitam a cidade da mesma maneira. Uns descem por ela com os sentidos postos em transgressões. São os assaltantes, meros profissionais de um modo de vida sem compromissos com a sociedade, obrigações às Finanças, legitimidade. Talvez com o senhorio, caso não tenham casa própria. Ou com o merceeiro. Apresentam-se lavados, escovados, o ar inocente de um anjo perdido na cidade branca, os sapatos meticulosamente lustrados, barba feita, unhas aparadas, sóbrias, pele das mãos lisas, brilhantes como maçãs. Elas, as mãos, conquistam o inexequível. O prodígio. Aventuram-se nos túneis dos bolsos alheios, ávidas, precisas, silenciosas. E assim alcançam o paraíso.

Alguns possuem aquele ar cinematográfico de James Bond, ou o rosto rígido de James Dean, quero dizer, olhar de metal por trás dos óculos escuros. Mas o pescoço (ao contrário dos actores), embora tenso é surpreendentemente flexível como o de um pato. Não mudam de cor como os camaleões, isso é domínio dos políticos ou dos vendedores de carros usados. Eles são homens práticos, activos. Não cultivam a retórica como modo de vida. São aventureiros de bairro, desses que povoam romances de cordel. Avançam pelos dias com passinhos de corvo, asas amplas, olhar clínico e paciente. Predadores citadinos, dispersam-se por espaços públicos disfarçados de cavalheiros humildes, chefes de família responsáveis, sem aparato nas cores das camisas, ora brancas, imaculadas e sem vincos passadas com esmero, ora bege,  castanho-claro, amarelo discreto. Gostam de passar despercebidos. Quem os vê admira neles o porte humilde, secreto embora, do homem comum que habita a cidade com um perfil de honestidade despido de suspeita. Não se comportam, por exemplo, como os chulos, cheios de anéis, colares de oiro, óculos Rayban, sapatos de marca e cigarro ao canto da boca. Não. Eles, os carteiristas de Lisboa, são os mais honestos profissionais da cidade. As suas qualidades e o seu profissionalismo alcançam um registo de integridade inigualável, se não impossível, de alcançar por qualquer profissional. Não são volúveis. São clínicos, dedicados, eficientes, inventivos. Fluidos. Vêm dotados, desde a nascença, de uma predisposição genética para a arte.

O cavalheiro que se sentou à nossa mesa, e sem ter sido convidado, tinha esse perfil. Surgiu como num golpe de magia, como se tivesse caído de um espaço invisível. De repente, imperceptível e com a leveza de uma pluma, ei-lo sentado à nossa mesa e de costas viradas para nós. Era um homem novo, tão escanhoado que a sua face, lisa e brilhante, só podia ser comparada à frescura de um bebé recém-nascido. Parecia um monhé. Não o das cobras, como no belo poema do poeta moçambicano Rui Knopfli. Mas daqueles homens sombrios, sobrancelhas cerradas e que recordavam personagens de policiais, calças de terylene, camisa aos quadradinhos, olhar mortiço, lânguido, perscrutador. Atirou, certeiro (sem que tivéssemos notado), o casaco para as costas da cadeira do meu lado direito onde eu tinha a máquina fotográfica. O golpe era previsível, simples, praticável. Fácil. Eu era o incauto, de pensamentos a navegarem noutro mundo.

Ainda pensei em cumprimentá-lo pela audácia. Apresentar-me de aperto de mão. Convidá-lo para um aperitivo. Afinal, a tarde de Lisboa estava magnífica e uma brisa fresca sacudia o toldo branco da esplanada. As gaivotas espalhavam-se em pontinhos claros ao fundo de um céu muito azul. Não me pareceu boa ideia, porém. Um artista não gosta que lhe descubram os segredos. Sobretudo que os revelem. Perde a originalidade. O valor. Antes que fosse tarde, peguei na máquina. Ele não teria a coragem de a tirar do meu colo. Seria um golpe fatal, demasiado arriscado. Deixou-se ficar muito tranquilo, a admirar a paisagem. Impávido.

Quando chamei a empregada para pedir a conta, já ele se tinha levantado e desaparecido por entre a multidão.

Se o inesperado, surpreendente visitante tivesse alcançado o que pretendia, levaria consigo mais do que um bom jantar. Teria, no entanto, consciência do real valor do roubo? Certamente poderia contar com a seriedade dos seus “contactos” no telemóvel. Bastava colocar um dedo no visor e logo lhe apareceria o nome de um amigalhaço, pronto a avançar-lhe uns 100 euros pela coisa. Nada de perguntas chatas, indiscretas. No âmbito da ética actual o porreirismo é uma forma elevada de cidadania. Há amigos por toda a parte. Do peito ou sem peito conforme interpretamos os meandros das redes sociais. Cem euros? Por que não? E lá iria ele, todo sorrisos, a massa no bolso. Talvez a assobiar. Talvez a tentar um pontapé num gato qualquer que lhe saltasse ao caminho. Nada de remorsos. Que se lixem os turistas, pensaria ele, essa corja que inunda a cidade só para tomar os copos e aborrecer os locais.