A genética de um carteirista

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Foto:Eduardo B. Pinto

/Eduardo Bettencourt Pinto

Abril? Maio? O mês é irrelevante. A luz de Lisboa é quase a mesma, branca, macia, aveludada. Quando desce, porém, pelo fulgor da manhã, parece um sussurro de amor, uma pomba em pleno voo. Espalha–se pela cidade como uma chuva de cristais, arrastando consigo um breve, fino odor a limão. É nesta luz que os poetas soltam as suas aves mais íntimas.

Mas os seres não habitam a cidade da mesma maneira. Uns descem por ela com os sentidos postos em transgressões. São os assaltantes, meros profissionais de um modo de vida sem compromissos com a sociedade, obrigações às Finanças, legitimidade. Talvez com o senhorio, caso não tenham casa própria. Ou com o merceeiro. Apresentam-se lavados, escovados, o ar inocente de um anjo perdido na cidade branca, os sapatos meticulosamente lustrados, barba feita, unhas aparadas, sóbrias, pele das mãos lisas, brilhantes como maçãs. Elas, as mãos, conquistam o inexequível. O prodígio. Aventuram-se nos túneis dos bolsos alheios, ávidas, precisas, silenciosas. E assim alcançam o paraíso.

Alguns possuem aquele ar cinematográfico de James Bond, ou o rosto rígido de James Dean, quero dizer, olhar de metal por trás dos óculos escuros. Mas o pescoço (ao contrário dos actores), embora tenso é surpreendentemente flexível como o de um pato. Não mudam de cor como os camaleões, isso é domínio dos políticos ou dos vendedores de carros usados. Eles são homens práticos, activos. Não cultivam a retórica como modo de vida. São aventureiros de bairro, desses que povoam romances de cordel. Avançam pelos dias com passinhos de corvo, asas amplas, olhar clínico e paciente. Predadores citadinos, dispersam-se por espaços públicos disfarçados de cavalheiros humildes, chefes de família responsáveis, sem aparato nas cores das camisas, ora brancas, imaculadas e sem vincos passadas com esmero, ora bege,  castanho-claro, amarelo discreto. Gostam de passar despercebidos. Quem os vê admira neles o porte humilde, secreto embora, do homem comum que habita a cidade com um perfil de honestidade despido de suspeita. Não se comportam, por exemplo, como os chulos, cheios de anéis, colares de oiro, óculos Rayban, sapatos de marca e cigarro ao canto da boca. Não. Eles, os carteiristas de Lisboa, são os mais honestos profissionais da cidade. As suas qualidades e o seu profissionalismo alcançam um registo de integridade inigualável, se não impossível, de alcançar por qualquer profissional. Não são volúveis. São clínicos, dedicados, eficientes, inventivos. Fluidos. Vêm dotados, desde a nascença, de uma predisposição genética para a arte.

O cavalheiro que se sentou à nossa mesa, e sem ter sido convidado, tinha esse perfil. Surgiu como num golpe de magia, como se tivesse caído de um espaço invisível. De repente, imperceptível e com a leveza de uma pluma, ei-lo sentado à nossa mesa e de costas viradas para nós. Era um homem novo, tão escanhoado que a sua face, lisa e brilhante, só podia ser comparada à frescura de um bebé recém-nascido. Parecia um monhé. Não o das cobras, como no belo poema do poeta moçambicano Rui Knopfli. Mas daqueles homens sombrios, sobrancelhas cerradas e que recordavam personagens de policiais, calças de terylene, camisa aos quadradinhos, olhar mortiço, lânguido, perscrutador. Atirou, certeiro (sem que tivéssemos notado), o casaco para as costas da cadeira do meu lado direito onde eu tinha a máquina fotográfica. O golpe era previsível, simples, praticável. Fácil. Eu era o incauto, de pensamentos a navegarem noutro mundo.

Ainda pensei em cumprimentá-lo pela audácia. Apresentar-me de aperto de mão. Convidá-lo para um aperitivo. Afinal, a tarde de Lisboa estava magnífica e uma brisa fresca sacudia o toldo branco da esplanada. As gaivotas espalhavam-se em pontinhos claros ao fundo de um céu muito azul. Não me pareceu boa ideia, porém. Um artista não gosta que lhe descubram os segredos. Sobretudo que os revelem. Perde a originalidade. O valor. Antes que fosse tarde, peguei na máquina. Ele não teria a coragem de a tirar do meu colo. Seria um golpe fatal, demasiado arriscado. Deixou-se ficar muito tranquilo, a admirar a paisagem. Impávido.

Quando chamei a empregada para pedir a conta, já ele se tinha levantado e desaparecido por entre a multidão.

Se o inesperado, surpreendente visitante tivesse alcançado o que pretendia, levaria consigo mais do que um bom jantar. Teria, no entanto, consciência do real valor do roubo? Certamente poderia contar com a seriedade dos seus “contactos” no telemóvel. Bastava colocar um dedo no visor e logo lhe apareceria o nome de um amigalhaço, pronto a avançar-lhe uns 100 euros pela coisa. Nada de perguntas chatas, indiscretas. No âmbito da ética actual o porreirismo é uma forma elevada de cidadania. Há amigos por toda a parte. Do peito ou sem peito conforme interpretamos os meandros das redes sociais. Cem euros? Por que não? E lá iria ele, todo sorrisos, a massa no bolso. Talvez a assobiar. Talvez a tentar um pontapé num gato qualquer que lhe saltasse ao caminho. Nada de remorsos. Que se lixem os turistas, pensaria ele, essa corja que inunda a cidade só para tomar os copos e aborrecer os locais.

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2 pensamentos sobre “A genética de um carteirista

  1. Como sempre uma prosa simples que nos Leva a vaguear por um Mundo descoberto pelas palavras que Tao vivida mente descrevem esse personagem tipico da vida Lisboeta. Bem Hajas amigo!

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