Plantando flores no tempo

nepal«Quanto mais areia escapar da ampulheta da nossa vida, mais fácil será ver através dela.»
Jean-Paul Sartre

/Eduardo Bettencourt Pinto

O ser humano é um sopro de terra em movimento. O seu destino a lancinante expressão da efemeridade. Penso nisto e nas mãos de Rosa, a minha vizinha. São pequenas e frágeis como pedaços de brisa suavizando uma flor. A pele, enrugada, fina e transparente, evidencia as veias, rios sinuosos, muito azuis e antigos. São a longa história da sua idade.

Rosa agarra-se firmemente ao andarilho. Fecha a porta da rua com a prudência serena de uma anciã pragmática, e sai de óculos escuros para um luminoso dia de Junho. Cada passo é um esforçado exercício de paciência, inesgotável e catártico esforço neste mundo. Rosa enfrenta a languidez do corpo com espírito combativo. Mas os achaques são muitos: doem-lhe os ossos, leves e delicados como os dos pássaros; doem-lhe a alma, o coração, os pulmões, as artérias. Mas pior do que tudo é a enorme sombra que vai escurecendo a sua memória. Não vem de uma árvore imensa mas de vidas que amou e se foram e a deixaram presa a uma insaciável melancolia.

A manhã é quente e Rosa apressa-se. Na curva acentuada dos seus ombros dardeja, diáfana, uma chuva de luz. Parece arrastá-la para uma zona irreal. Que divindade poética lhe traça a silhueta com pinceladas abstractas até se perder na distância? A sua figura vai diluindo-se como o golpe de vento que arrasa pegadas na areia. Fica a sua claridade. O sol emana de seres assim, únicos. Acompanha-os mesmo na grande, imensa noite do silêncio porque detêm um modo de estar neste mundo mais perto das estrelas.
Entretanto caíram quatro folhas do calendário e rolaram pelo chão numa dança inconsequente. A terra encheu-se de magnéticas ressonâncias num descanso de raízes. A luz da madrugada, austera, talhou no horizonte uma máscara exangue. Aos poucos, leve como o pó dos mitos, imperceptível no sussurro de uma pétala em declínio, veio o Outono. Instalou-se com as suas roupagens, os seus ventos e chuvas, encurtou os dias e alongou as noites. Rosa começou a acender a luz de casa mais cedo, os seus passos adormecidos na fragilidade, roendo silêncios, conquistando pequenas distâncias.
Mas a voz, sim, a voz, implora um espaço no mundo. Ouve mal, é certo, por isso fala muito alto ao telefone. As janelas abertas acolhem as suas ondas roucas. Chega-me à sala um dédalo sonoro ininteligível enquanto uma borboleta branca sobrevoa as plantas do canteiro num voo cristalino e gracioso.

Desta vez, porém, é o meu telefone que toca. Não posso atender logo. Noto o seu nome no mostrador. Minutos depois ligo-lhe.

— Continua interessado nos slides do Nepal?

Subimos ao seu apartamento. Rosa recebe-nos com amabilidade e cortesia. É uma senhora frágil, transparente e cativante. Do seu olhar goteja uma iridescência invernal. Move-se com a energia de um espírito indomável, embora o seu corpo acuse o natural declínio da longevidade. A sala encontra-se preparada com o projector, a caixa de slides e o ecrã. Insiste no chá. Prepara-o e deixa-o numa bandeja na mesinha da sala.
Nesta cidade canadiana Novembro é um mês de sombras antecipadas. Em poucos minutos a sala escurece. As imagens dos slides renovam-se sob o clique do comando. São recordações do Nepal. Rosa esteve lá dois anos. Identificou-se com o país após a primeira visita. Rolam imagens dos seus percursos pedestres pelas montanhas do Nepal, por trilhos e estradas de pó. Acompanhavam-na seis ajudantes cuja função era levar os mantimentos e toda a logística necessária para mais de um mês. Os cenários que passam no ecrã são tranquilos. De vez em quando a objectiva regista rostos serenos e escuros. São figuras de pedra, estáticas, calcinadas sob o bronze dos ventos, entregues agora a uma memória translúcida e que nos invade os sentidos. Às vezes passavam por eles homens a correr, diz Rosa. Assim atravessavam distâncias diárias, pés descalços sobre pedra e pó, até chegarem ao outro lado das suas vidas.

O que prende uma pessoa a um lugar? Rosa não sabe explicar. Há coisas que habitam os sentidos, pertencem a um domínio secreto, muito dentro de nós. Os cheiros, por exemplo, instigam lembranças, evocam referências emocionais, prendem-nos a recordações nem sempre identificáveis. O Nepal, com a sua pobreza secular, o seu exotismo e sentido de aventura, despertaram-lhe uma necessidade muito grande de se estabelecer lá, mesmo que provisoriamente, no seu caso dois anos. Criou laços, viajou a pé, dormiu sob céu aberto contando as estrelas até receber a madrugada nos seus olhos cansados, abraçou a chuva, o sol e o vento, o calor e o frio. Sentada na cadeira, premindo o botão do comando enquanto os slides correm no ecrã, fico com a impressão de que Rosa vê desfilar, numa tarde de Novembro, grande parte da sua vida.

Sozinha e sem família no Canadá, Rosa vai-se desfazendo aos poucos das suas coisas. Quando partir para a ausência derradeira, não quer deixar aos outros a responsabilidade dos seus pertences. O que lhe custou mais foi separar-se dos livros. Sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, passou por todas as vicissitudes que advieram de um país totalmente destruído. Os seus livros foram parar à lareira e ao fogão. «Foi como se me tivessem rasgado por dentro» disse, emocionada com essa lembrança. Desta vez, porém, doou-os a uma biblioteca ligada a uma organização do Nepal, o que atenuou um pouco a mágoa de ter de se desfazer deles.

Saio da sua casa com a impressão de ter viajado no tempo de uma vida comprometida com as suas recordações mais profundas. É um privilégio nostálgico o que me foi dado experimentar. Uma espécie de canção de adeus nos olhos de quem viveu muito e agora se prepara para viajar, sem peso e sem memórias, pelo infinito. «O coração de uma mulher é um continente, é preciso uma vida inteira para descobri-lo», afirmou recentemente numa entrevista Adonis, o poeta sírio. Eu não poderia estar mais de acordo.

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