Eufeme, com o calor do lume

eufeme-2-capa_2/Eduardo Bettencourt Pinto

Esta Eufeme a que me refiro não é a deusa da mitologia grega. Trata-se de uma revista de poesia que se publica no Porto, cujo número 2 saiu em Janeiro de 2017. O editor e coordenador é o poeta Sérgio Ninguém. Estão aqui representados dezassete poetas. A saber, e por ordem alfabética: Amadeu Baptista, Aram Saroyan (americano, traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho), Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Filipa Leal, Francisco Cardo, João Rasteiro, Jorge Batista de Figueiredo, José Carlos Costa Marques, Luís Quintais, Miguel-Manso, Nuno Dempster, Pedro Jubilot, Rafael Courtoisie (uruguaio, traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho), Rosa Alice Branco, Rui Tinoco e Sandra Costa.

Numa altura em que a poesia anda descalça pelo alheamento das modas literárias vigentes, tão viradas para a sordidez de um mercado quantas vezes imediatista e movido a bolhas de ar, uma revista deste calibre, com esta elevada qualidade estética e de conteúdo, é motivo para uma efusiva celebração. Desde a escolha do papel, um regalo nas mãos, ao grafismo, sóbrio e de bom gosto, tem-se consciência de se estar perante um objecto de qualidade e que nos estimula os sentidos: Arte na apresentação, arte igualmente nos conteúdos.

Uma iniciativa destas, sobretudo nos tempos que correm, de maus ventos económicos, é um arrojo de grandes proporções. Só um espírito livre, empenhado e com elevado sentido de missão em prol da poesia, consegue efectivamente dar corpo a um projecto desta envergadura. As modas estão contra, os muros dos lobbies são altos e de renhida resistência, os tiques proliferam sob a cantata desordenada do poder de quem impõe as regras do mercado.  Eufeme respira poesia de página a página na solitária e nobre missão de divulgar poetas não só de Portugal como estrangeiros, num convívio salutar e aberto, cuja faceta é a de nos oferecer perspectivas e sensibilidades várias, numa partilha de elevada qualidade.

Longe vão os anos da utopia. Houve um tempo, um tempo luminoso em que se davam as mãos, a poesia saía à rua aos gritos e rolava livre pela relva das cidades e pela luz dos campos. Portugal, nos anos setenta, explodia de vitalidade. Era um país de poetas, e foram eles aliás que construíram em uníssono uma nova madrugada. Múltiplas e significantes eram as iniciativas editoriais. Foram os anos da minha juventude em que observei a solidariedade converter um pequeno país europeu numa chama de alegria e promessa.  Veio entretanto a máquina do consumismo desenfreado estabelecer novas regras, corromper o espírito de um tempo que vingava pelo seu dinamismo, abnegação e sentido de grupo. O individualismo, o culto da personalidade, a morte das ideologias, todo um leque de nefastos tiques engendraram este circuito (circo) de comportamentos cuja essência rodopia em volta do umbigo, acabando por minar o que de bom existia no mundo das letras.

O lugar da poesia é de facto o coração do homem. Só alguém com a sensibilidade de Sérgio Ninguém, também ele poeta de elevados recursos, poderia de facto «atirar-se» ao mundo com tanta abnegação, com tanto empenhamento. É um esforço admirável, titânico e que nos comove pelo seu empenhamento, altruísmo e generosidade. Um projecto que merece todo o nosso aplauso e apoio.

Sítio da revista: eufeme.weebly.com

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